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Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

ERA GLACIAL


Durante uma era glacial, muito remota, quando parte do globo terrestre estava coberta por densas camadas de gelo, muitos animais não resistiram ao frio intenso e morreram, indefesos, por não se adaptarem às condições do clima hostil. Foi então que uma grande manada de porcos-espinhos, numa tentativa de se proteger e sobreviver, começou a se unir, a juntar-se mais e mais.

Assim, cada um podia sentir o calor do corpo do outro, e, todos juntos, bem unidos, agasalhavam-se mutuamente, aqueciam-se, enfrentando por mais tempo aquele inverno tenebroso.

Porém, vida ingrata, os espinhos de cada um começaram a ferir os companheiros mais próximos, justamente aqueles que lhes forneciam mais calor, aquele calor vital, questão de vida ou morte. E afastaram-se, feridos. Dispersaram-se, por não suportarem mais tempo os espinhos dos seus semelhantes. Doíam muito...

Mas, essa não foi a melhor solução: afastados, separados, logo começaram a morrer congelados. Os que não morreram voltaram a se aproximar, pouco a pouco, com jeito, com precauções, de tal forma que, unidos, cada qual conservava uma certa distância do outro, mínima, mas o suficiente para conviver sem ferir, para sobreviver sem magoar, sem causar danos recíprocos.

Assim, suportaram-se, resistindo à longa era glacial!...Sobreviveram!

É fácil trocar palavras, difícil é interpretar os silêncios! ...

É fácil caminhar lado a lado, difícil é saber como se encontrar! ...

É fácil beijar o rosto, difícil é chegar ao coração! ...

É fácil apertar as mãos, difícil é reter o seu calor! ...

É fácil sentir o amor, difícil é conter a sua torrente!

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Sábado, 29 de Março de 2008

Gladiadores do sec. XXI

 

Nas civilizações primitivas, os homens lutavam e matavam-se à paulada.

Até há cerca de
2000 anos, durante seis séculos, imperadores romanos promoveram, como entretenimento da plateia dos coliseus, as lutas dos gladiadores, entre si ou contra animais ferozes. Estas lutas eram um espectáculo preferido dos romanos, e o duelo só terminava quando um deles morria, ficava desarmado ou ferido sem poder combater. Nesse momento do combate é que era determinado por quem presidia aos jogos, se o derrotado morria ou não, frequentemente influenciado pela reacção dos espectadores do duelo.

Hoje ainda vemos os animais a lutar uns contra os outros. Destroçam-se, matam-se e... comem-se, é natural, para manterem o seu domínio, o seu território, a sua liderança, a sua sobrevivência e a continuação da sua espécie.

Mas, nós, os Homens, tornamos em gladiadores "civilizados" do século XXI. No palco do coliseu das sociedades, as lutas continuam, só que à maneira das lutas "civilizadas", agindo como os nossos antepassados (fomos bem ensinados).

Os homens de hoje, elegantemente vestidos, com gravatas de seda, fatos caros, camisas finas e de marcas elegantes, demagogas e estereotipadas frases e formas externas bem cuidadas e estudadas, ferem e esmagam os seus opositores sem piedade. Não tão com não menos crueldade, selvagismo e ódio dos imperadores romanos ou de um animal não civilizado. Mas, fazem tudo "civilizadamente". A lei da selva continua de pé.

O mais forte destrói o mais fraco. Há que fazer tudo "civilizadamente". Há que portar-se "civilizadamente". Há que matar-se "civilizadamente". Hoje fazemos tudo "civilizadamente". Dão-se falsas desculpas e mente-se "civilizadamente". Atropelam-se os outros "civilizadamente". Rouba-se "civilizadamente"…

Quanto mais débil e vulnerável é a presa, mais se enfurece o caçador, há que fazer agressão para mostrar a sua força.

Passar por cima de tudo e de todos, ganhar todas as batalhas do dinheiro, tornou-se mais importante do que salvar uma vida, ter amizade e dar atenção a alguém que possa precisar.

Organizações mundiais contra a fome, e dos direitos humanos são constituídas, todos nós tentamos de alguma forma contribuir com algo, dão-se modelos económicos e normas de conduta, falamos e tornamos a falar, contudo, perguntamos: - Porque enriquecem os mais poderosos? Porque, cada vez mais, há pobres a serem engolidos e absorvidos numa triste e cruel miséria?

O mais grave em todo este panorama do nosso mundo "civilizado", é que nos acostumamos a isso, e quase não nos impressiona nem nos preocupa. Sem dar-nos conta, não fazemos mais do que os antigos espectadores das plateias dos coliseus, aplaudimos e depois, decidimos quem vai morrer ou continuar a viver.

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contado por Jorge Oliveira às 12:34

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Quarta-feira, 19 de Março de 2008

DIA DO PAI

Da criança para o Pai:

- Não me dês tudo que eu pedir. Às vezes, eu só peço para ver até quando posso obter.
- Não me dês sempre ordens; se, ao invés de ordens, às vezes me pedires as coisas, eu as farei mais rápido e com mais prazer.
- Cumpre as promessas, boas ou más. Se me prometeres um prémio, dá-me, mas, também, se for um castigo.
- Não me compares com ninguém, especialmente com meu irmão ou minha irmã. Se tu me fizeres brilhar menos que os demais então serei eu quem se apagará.
- Não corrijas minhas faltas diante de ninguém. Ensina-me a melhorar quando estivermos a sós.
- Não me grites. Respeito-te menos quando o fazes e me ensinas a gritar também, e eu não o quero fazer.
- Deixa-me desenvolver-me por mim mesmo. Se tu fizeres tudo por mim, eu nunca aprenderei.
- Quando eu fizer algo mal, não me exijas que diga porque o fiz. Às vezes, nem eu mesmo o sei.
- Não digas mentiras demais de mim, nem me peças para dizê-las por ti, mesmo que seja para livrar-te de um apuro. Fazes com que eu me sinta mal, e perca a fé no que dizes.
- Quando estiveres errado em algo, admite-o e crescerá a opinião que tenho de ti. E me ensinarás a admitir meus erros também.
- Trata-me com a mesma amabilidade e cordialidade com que tratas teus amigos, já que, porque somos família, isso não quer dizer que também não possamos ser amigos.
- Não me digas para fazer uma coisa que tu não a fazes. Eu aprenderei e farei sempre o que tu fizeres mesmo que tu não o digas, mas nunca o que tu disseres e não fizeres.
- Quando contar-te um problema meu, não me digas "não tenho tempo para ouvir disparates" ou "isso não tem importância". Trata de compreender-me e ajudar-me.
- Diz que gostas muito de mim. A mim agrada-me ouvir-te dizê-lo, mesmo que tu não julgues necessário dizer-me.

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contado por Jorge Oliveira às 18:29

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Segunda-feira, 10 de Março de 2008

O DESERTO DE ÁGUA

Escrevi outrora", diz Diolé, "que quem tivesse conhecido o mar profundo já não podia voltar a ser um homem como os outros. É em instantes como este (no meio do deserto) que tenho a prova disso. Pois percebi que mentalmente, enquanto caminhava, eu enchia de água o cenário do Deserto! Na imaginação, eu inundava o espaço que me cercava e no centro do qual caminhava.


Vivia numa imersão inventada. Deslocava-me no centro de uma matéria fluida, luminosa, protectora, densa, que era a água do mar, a lembrança de água do mar. Esse artifício bastava para humanizar aos meus olhos um mundo de uma secura repugnante, conciliando-me com as rochas, com o silêncio, com a solidão, com as toalhas de ouro solar que caíam do céu. Minha própria fadiga estava amenizada. Meu peso apoiava-se em sonho nessa água imaginária.

 
"Percebi então que não era a primeira vez que inconscientemente recorria a essa defesa psicológica. O silêncio e a lenta progressão de minha vida no Saara despertavam em mim a lembrança do mergulho. Uma espécie de doçura banhava então minhas imagens interiores; e na passagem assim reflectida pelo sonho a água aflorava naturalmente. Eu caminhava, trazendo comigo reflexos luzentes, uma espessura translúcida que nada mais era que lembranças do mar profundo.

Philippe Diolé ensina-nos a estar em outro lugar sem mudar-nos de lugar, apenas de natureza, quando tudo em nós parece ser uma imagem deserta, fatalista, moribunda e melancólica.


Um cenário angustiante, cheio de obstáculos, que nos podem reter como uma prisão para a morte, é transformado, as areias infinitas tornam-se em água ilimitada.


Tão somente, basta a imaginação para viver num novo espaço, todos nós somos capazes de transformar areia em água. As imagens fazem parte do nosso ser, estando na base de qualquer imaginação na procura de ser feliz. Nada há quem derive de quimeras e ilusões, as imagens são reais. Nesta história o tempo e o espaço estão aqui sob o domínio da imagem da nossa própria natureza. Que custa tentar?

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contado por Jorge Oliveira às 17:10

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Domingo, 9 de Março de 2008

ABRE UMA NOVA JANELA

Conta-se que uma certa menina tinha um lindo cãozinho de estimação.


Ela devotava muito carinho e atenção por ele. Todos os dias, ao cair da tarde, ficava na varanda de sua casa, olhando seu cãozinho brincar. Certo dia, ao voltar da escola, percebeu um movimento intenso e algo estranho no ar...
- O que houve? Perguntou à sua mãe. O cãozinho morrera, um carro o atropelou e o matou.

 Que tragédia, para aquela menina! Após uns dias isolada no quarto, alimentando sua tristeza, ela passou a adoptar um comportamento estranho. Todos os dias, ao cair da tarde, ficava na janela do seu quarto, olhando para o portão da casa, numa ingénua ilusão, esperando ver seu cãozinho voltar. Assim ficou por muitos dias.

 Até que, seu pai com o coração partido por ver a filha assim, tomou-a nos braços e disse:
- Filha, lá em nosso jardim nasceu uma linda flor. Anda, vem comigo contemplá-la desta nova janela, porque nesta, onde vens todos os dias, tu não a consegues ver, anda, vamos abrir aquela e mudar de janela!
Nossa existência é semelhante a uma casa de muitas janelas, que possibilita a contemplação de várias paisagens.

 

O problema é que muitos fazem da vida uma casa de uma única janela. E ali, ficam debruçadas, por anos.

Quando alguém age assim, o foco da sua atenção fica limitado, possibilitando-o de ver outras paisagens. Na vida, às vezes, temos que mudar de janela, para contemplar o novo ao nosso redor.

Uma janela que precisa ser fechada é a do ressentimento.

Quem fica debruçado sobre esta janela olha a vida pelo ângulo da amargura, do desencanto, da tristeza profunda.

A pessoa ressentida, perde a confiança no amor, não investe em novos relacionamentos, fecha as portas para o perdão e tem visão muito negativa da vida.

Muda de janela!

Outra janela que precisa ser fechada é a do medo.

O medo é um mal terrível. Milhares de pessoas estão fixadas nesta janela.

Somente vêem os perigos, os obstáculos, as dificuldades. Na mente delas não existem sonhos, só pesadelos, o que estes têm de bom é que nos possibilitam acordar.

Quem fica a olhar a vida através da janela do medo, só contempla o caos.

Troca a janela do medo, pela da coragem. Ela desperta em nós a determinação e o optimismo.

Medo é a derrota antecipada. Terrível é a vida dos que se fixaram na janela do passado. Não vêem nada em sua frente a não ser motivos para se lamentar.

Quem vive debruçado sobre o passado não consegue vislumbrar o futuro.

Muda de janela!

Mude para a janela da esperança.

Ela nos faz sonhar com dias melhores.

Quem quer vencer na vida, precisa ter a reflexão no passado, os pés no presente e os olhos no futuro, e caminhar sempre nesse direcção!... Muda de janela e vê que tu não está só.

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contado por Jorge Oliveira às 17:02

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Sábado, 8 de Março de 2008

QUEM LEMBRA A NAU CATRINETA?

Quem lembra a Nau Catrineta
quem a chora e a lastima,
ondas do mar abaixo
ondas do mar acima?

Quem vira costas aos cais
que da espera se arruína,
ondas do mar abaixo
ondas do mar acima?

Quem, de janelas fechadas,
enlutadas, desanima,
ondas do mar abaixo
ondas do mar acima?

Neste silêncio de mais
pelo cais, onde a neblina
apaga esquinas, umbrais,
um velho arrais se aproxima..

A névoa que traz nos olhos
a névoa que o encortina
arranca flocos de névoa,
trovas de pranto em surdina:
«Eu sei da Nau Catrineta
que tem muito que contar,
Foi EI- Rei quem ordenou
que a fossem aparelhar.
O capitão a aparelha
nem mais tinha que esperar,
ao sair da barra fora
tudo era arrebicar.

Por um lenho cacilheiro
amarras manda levar,
para navegar em cheio
manda as velas desfraldar.
Salva a Torre do Bugio
quando a nau vai a passar.
- Adeus, marinheiros velhos,
adeus, que vamos largar.

Uns em terra de joelhos,
outros a bordo a rezar
mais as mulheres, que na praia
em choros desabalados,
pedem a Deus pelos maridos,
pelos filhos, pelos amados.
- Adeus, João da minha alma
que já não vos torno a ver,
porque o rei vos manda à guerra
pelejar até morrer.
- Adeus, Pedro da minha alma
que não vos volto a tocar,
porque o rei vos manda à guerra
combater até finar.

O capitão, que isto ouviu,
quando o estavam a amarrar
ao mastro-mor do navio,
cobrou a voz do mandar:
- Bem hajas, bom marinheiro,
meu amigo tão leal,
subi já a este mastro,
a esta gávea real,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal.

- À popa terras avisto
mas não são de Portugal,
são terras de Berberónia,
más terras, meu general.

- Olha à proa, marujinho,
arriba ao mastro real,
vê se vês terras de Espanha
ou praias de Portugal.

- Não vejo terras de Espanha
nem praias de Portugal,
vejo três espadas nuas
à espera, para vos matar.

- Ai, minha Nau Catrineta,
minha nau de tanto mar,
quem diria que, um dia,
nela iria naufragar.

E o capitão amarrado
ali se pôs a chorar.
Acerca-se do mastro grande
um piloto mui bizarro,
olhos verdes de peçonha
e cara da cor do barro:
- Se quiseres, meu capitão,
da morte ser perdoado,
assim me dês a tua alma
que eu leve para outro lado...
Dou-te, em troca, terra firme
depois do barco afundado,
todos nele se afundarão
que só tu serás poupado.
Perguntou-lhe o capitão
de semblante muito irado:
- Quem és tu para prometeres
morte e vida, renegado?
- Quem eu sou não adivinhas,
mas cumpro com o combinado.
- Vai-te daqui, tentador,
se não queres ser açoitado.
Puxou-lhe o capitão a capa
e tinha rabo, o malvado,
à cinta todo enrolado
e mais pontudo no cabo.
Tirou-lhe o capitão o gorro
e estava bem enfeitado:
dois cabides de encarnado.
Não lhos cobiço nem gabo.
Persignou-se o capitão,
persignou-se a marujada
e o diabo estoirou
num trovão de trovoada.

O trovão a trovejar
e lá de riba o gajeiro,
nesta grita de pasmar:
- Alvíssaras, senhor, alvíssaras,
meu capitão-general,
já vejo terras de Espanha, .
areias de Portugal.
- Afirma-te, amigo, afirma-te,
toma-te bem a afirmar,
ve se essas sao as terras
que andamos a buscar.

- São pelo certo, bem as vejo,
mais de perto neste mar.
Vejo os rios a correr,
lavadeiras a lavar,
vejo muito forno aceso,
padeiras a padejar
e vejo muitos açougues,
carniceiros a cortar...
Se não nos faltar o vento
à terra iremos já dar.

Tinha olhos de alegria,
o capitão a chorar,
e ainda mais ele pedia
o que queria adivinhar:
- Gajeiro, meu bom gajeiro,
que me vieste a salvar,
vê se avistas minhas terras,
no meio de Portugal,
e se, depois, mais enxergas
de quem lá está a morar.
- Daqui vejo três meninas
debaixo de um laranjal,
uma está fiando ouro,
outra na tela a bordar
e a mais pequena de todas
com sua mãe a brincar.
- Todas três são minhas filhas,
quem mas dera já beijar,
a mais velha é Maria,
a do meio Brianal,
a mais moça Flor do Dia,
fresca flor do laranjal.

A mais linda delas todas,
meu mam jinho leal,
hás-de tu a desposar,
e o meu cavalo branco
com duzentas campainhas
à roda do peitoral
também eu te quero dar.
Vais morar para minha casa
e de lá te vais casar,
colete bordado a ouro,
calção de fino tear,
chapéu de pluma a rigor,
sapato de leve pisar.

Palavras não eram ditas
ferro a nau a deitar
e - Viva! Viva! - de terra
e lá da nau a bradar.»
E o arrais terminando
quando o luar soltava,
muito brando, quase teia,
seus raios por sobre o mar,
não vendo, adivinhando
que estariam a escutar
a melopeia, hesitando
se haviam de acreditar,
ergueu a voz, sustentando:
- Ninguém pode refutar
que tudo assim sucedeu.
Senhores, olhai e ouvi:
o tal gajeiro era eu.

E a história acaba aqui.

 

(Histórias Tradicionais Portuguesas Contadas de Novo)

 António Torrado

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contado por Jorge Oliveira às 17:13

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Terça-feira, 4 de Março de 2008

Às 7 em Ponto

Numa das paredes da minha sala, encontra-se um bonito relógio antigo, que outrora foi dos meus pais e por sua vez já era dos meus avós, mas que deixou de trabalhar. Os ponteiros, parados praticamente desde sempre, assinalam imperturbáveis a mesma hora: as sete em ponto.
A maior parte do tempo, o relógio é apenas um inútil objecto de decoração numa parede branca, vazia. No entanto, há dois momentos durante o dia, dois fugazes instantes, em que o velho relógio parece renascer das cinzas como uma fénix.
Quando todos os relógios da cidade, nos seus ritmos enlouquecidos, marcam as sete e os cucos, e os gongos das máquinas fazem soar sete vezes o seu repetido canto, o velho relógio do meu quarto parece ganhar vida. Duas vezes por dia, de manhã e à noite, o relógio sente-se em completa harmonia com o resto do Universo.
Se alguém olhar para o relógio apenas nesses dois instantes, diria que funciona às mil maravilhas... mas, passado esse momento, quando os restantes relógios calam os seus cantos e os ponteiros prosseguem o seu monótono caminho, o meu velho relógio perde o passo e permanece fiel aquela hora em que, um dia, deteve o seu andar.
E eu adoro este relógio. Quanto mais falo dele, mais o adoro, porque cada vez mais sinto que sou parecido com ele.
Também eu estou parado no tempo. Também eu me sinto preso e imóvel. Também eu sou, de alguma maneira, um adorno inútil numa parede vazia.
Mas desfruto também de momentos fugazes em que, misteriosamente, chega a minha hora.
Durante esses momentos, sinto que estou vivo. Tudo se torna claro e o mundo afigura-se-me maravilhoso. Consigo criar, sonhar, voar, dizer e sentir mais coisas nesses instantes do que no resto do tempo. Estas conjunções harmónicas ocorrem e repetem-se uma e outra vez, como uma sequência inexorável.
A primeira vez que o senti, tentei agarrar-me a esse instante, pensando que o poderia fazer durar para sempre. Mas não. Como acontece com o meu amigo relógio, também a mim se me escapa o tempo dos demais.
...Passados esses momentos, os outros relógios, que vivem dentro de outros homens, continuam a sua rotação e eu volto à rotineira morte estática, ao meu trabalho, às minhas conversas de café, ao meu entediado passo a que costumo chamar vida.
Mas sei que a vida é outra coisa.
Sei que a vida, na verdade, é a soma daqueles momentos, ainda que fugazes, nos permitem perceber a sintonia com Universo.
Quase toda a gente, coitada, está convencida de que vive.
Existem apenas momentos de plenitude e quem não o souber e teimar em viver para sempre, ficará condenado ao mundo da passagem cinzenta e repetitiva do quotidiano.
Por isso te adoro, velho relógio. Porque somos a mesma coisa, tu e eu.
Esta metáfora fabulosa ensina-nos: que talvez todos vivamos apenas na harmonia de alguns momentos. Talvez agora, neste presente, a hora da verdadeira vida coincida com a tua própria hora, todos temos essa hora, desfruta-a. Talvez passe.... demasiado pressa. Esta é uma paupérrima jóia de Paupini. 

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contado por Jorge Oliveira às 15:45

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