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Sexta-feira, 28 de Março de 2008

FORTE CASTELO DE AREIA

... (continuação do Frágil Castelo de Areia)


"...Pobre menina crescida que deixou de brincar e sonhar ... O seu mundo ainda se move a risos... Veio uma onda e levou-lhe o castelo."

E porque os risos são pózinhos mágicos, aspirados directamente em nossos corações, essa pobre menina crescida, um dia em simples passe de magia ... voltou a brincar, e se viu mesmo menina em suas fantasias, muito mais que rainha, médica ou princesa, por milagre se viu ...De verdade!!! E sentiu que seu riso era o de outrora, cristalino, sonoro e puro!


Foi nesse instante, tão fugaz, quanto importante, que decidiu reconstruir "Seu Castelo", realinhar o seu areal de mimos, devolver em dobro todos os carinhos de seu povo, em abraços alimentar seus iguais, pois essa menina vivia, sorria, amava de novo... e isso era Demais!
Não que agora seus predicados fossem estranhados, pois em sua perca, forma mais que esperados!


Então a Menina mimou muito, amou demais, a si, a seus sonhos, a todos e todos, pois só assim se fez de fantasias, alegrias, risos puros e bons, de que esse Mundo/Reino tanto necessitam, pois ser Realeza ou Divindade, é só para quem tem pureza em seu coração!

 

Contributo de ROSA FONSECA (Amiga invisível, mas tão bem conhecida!) 


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Quinta-feira, 20 de Março de 2008

O Carochinha e o João Ratão da Net.

A história que vou contar.
já multa gente a contou.
As rimas que vou rimar.
já multa gente as rimou.

Nesta história vão entrar
quem o destino marcou:
desgraças, noivas sem par
um rato que escorregou...

Que a história que vou contar
é história de luto e dor.
Em história assim similar
muito sofre o contador.

Pudesse eu remediar
o como a história acabou,
que não estaria a chorar 
ainda ela mal começou. 

Mas já que vou começar
e alguma vez há-de ser,
vejo num quadro exemplar
a Carochinha a varrer.

Menina Carocha Barata
de cara muito laroca
corpinho vestindo bata
não me toques... Quem lhe toca?

No meio do pó do varrer
encontrou uma moeda,
«Estou rica. Não querem ver!»
Aqui a história se enreda.

Acorreram as vizinhas
cada qual com seu conselho:
«Compre fitas e lacinhos.
Compre brincos. Compre espelhos .»

Só o espelho não comprou
que o espelho que queria ter
eram dois olhos que a vissem
na janela do bem-querer.

Sou Carochinha assisada.
Sou bonita e perfeitinha.
Quem me quer para namorada?
Quem me diz «Tu vais ser minha?»

Quem me chama «Meu amor,
bichaninha» e ao ouvido?
Quem me traz do seu calor?
Quem entende o que eu nem digo?

E cantando, apregoava
a cantiga ladainha:
«Quem quer, quem quer, quem quer
casar com a Carochinha?»

«Quero eu» e era um boi.
«Quero eu» e era um cão.
«Quero eu» e era um gato.
E ela a todos que não.

«Quero eu» e era um burro.
«Quero eu», era um pavão.
«Quero eu» e era um galo.
E ela a todos que não.

Enfeitada, apregoava,
com colares de camarinha:
«Quem quer, quem quer, quem quer
casar com a Carochinha?»

«Quero eu», disse-lhe um rato.
«E porquê?», a Carochinha.
«Porque sou o rei do mato
e tu serás a rainha.

Rainha de todo o reino
rainha do coração
minha rainha, só minha
diz-me que sim, nunca não.»

E com palavras assim
em meiga voz de paixão
lá ficou a Carochinha
cativa do João Ratão.

Combinado o casamento
juntaram comeres para a boda
dez feijões de cozimento
que era a riqueza toda.

O padrinho deu toucinho
a madrinha, uma hortaliça.
Do merceeiro, fiado,
também veio uma chouriça !

Ficou o caldo a cozer
enquanto se foram casar.
Nisto disse para a mulher:
«E se a sopa se pegar?»

E se a sopa se pegar?
E se a sopa se pegou?
E se ficamos sem jantar?
Vou lá eu e venho e vou.

Vou lá e venho e vou.
Vou lá e venho e ia.
A Carochinha esperava
e o noivo não aparecia.

Vou lá eu e venho e vou.
Vou lá eu e venho e ia.
A Carochinha chorava. 
Mau agouro que teria.

Chegados aqui, paramos
atalhamos, suspendemos.
A história tem tantos anos
e nós ainda a tememos.

E nós ainda trememos
e a história ainda nos dói
neste transe e desventura
do ratinho nosso herói.

Ia casar-se feliz
com a linda Carochinha...
Foi tentado pelo cheiro
que saía da cozinha...

Empoleirou-se num banco
para provar o feijão.
Deu o banco um solavanco
ficou-lhe no caldo a mão.

Logo após este desastre,
a outra mão lá ficou
e um pé e outro pé
e todo o corpo afundou.

Coitado do João Ratinho
Coitado do João Ratão,
que morreu cozido, assado
guisado no caldeirão.

«Onde estás, meu ratãozinho»,
chamou-o a noiva, em pranto,
mas só topou, na cozinha,
com o chapéu, a um canto.

Quis ir mexer o feijão
para o caldo não bispar
e foi dar, no caldeirão,
com o marido a boiar.

Carochinha em altos gritos
tudo à roda atordoou.
Condoída, uma tripeça
logo ali se desmanchou.

Logo ali se desmanchou
logo ali se desmanchava
e uma porta perguntou
que desgraça se passava.

Mal soube do sucedido
a porta deu o alarme:
«Se morreu o João Ratão
fico a abrir-me e a fechar-me.»

Mal soube do sucedido
o fecho deu o alarme:
«Se morreu o João Ratão
fico todo a desmanchar-me.»

Mal soube do sucedido
o pinheiro deu o alarme:
«Se morreu o João Ratão
fico a puxar-me, a arrancar-me.»

Mal soube do sucedido
a pomba deu o alarme:
«Se morreu o João Ratão
fico eu a depenar-me.»

Mal soube do sucedido
a fonte deu o alarme:
«Se morreu o João Ratão
fico sem gota, a secar-me.»

A rainha veio à fonte
e viu a fonte sequinha,
de luto pelo João Ratão
e com dó da viuvinha.

A rainha mal tal soube
logo ali se condoeu
e disse para quem a ouviu:
«Choram todos. Choro eu .»

Veio o rei, viu-a a chorar
e indagou da razão.
A rainha lhe contou
da morte do João Ratão.

Pôs-se o rei, numa lamúria
de cortar o coração:
«Já não quero mais ser rei
se morreu o João Ratão .»

O mundo quase findou,
choram mil olhos por ti.
Se até um rei abdicou!...
E a história acaba aqui.

 

(Histórias Tradicionais Portuguesas Contadas de Novo)

 António Torrado

Há por ai muita Carochinha (na grande janela da Net as há), à espera de ser rainha, que um dia lhe apareça um lindo príncipe João Ratão, bem parecido, janota e bonitão e se ter um bruto carrão, tanto maior será o seu encanto.

 

Até que um dia o milagre acontece, a fábula passa de sonho à realidade. Eis o João Ratão, um bonito rapazão, mas que belo garanhão! - Vinde cá minha Carochinha, vou-te fazer um juramento, nunca te hei-de atraiçoar, és, de todas, a mais linda rainha, e contigo quer desposar, um e dois dias de amor, sempre com a promessa de que para sempre no seu coração irá morar.


Mas o João Ratão, grande glutão, aproveita para tudo comer e depois, sem temer, acaba por cair em outro caldeirão – "Adeus Carochinha que mais não vos torno a ver. "


A história acaba aqui, a Carochinha sai a chorar, e lastima-se, janelas fechadas, triste desanima por toda aquela desgostosa ruína...

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Domingo, 9 de Março de 2008

ABRE UMA NOVA JANELA

Conta-se que uma certa menina tinha um lindo cãozinho de estimação.


Ela devotava muito carinho e atenção por ele. Todos os dias, ao cair da tarde, ficava na varanda de sua casa, olhando seu cãozinho brincar. Certo dia, ao voltar da escola, percebeu um movimento intenso e algo estranho no ar...
- O que houve? Perguntou à sua mãe. O cãozinho morrera, um carro o atropelou e o matou.

 Que tragédia, para aquela menina! Após uns dias isolada no quarto, alimentando sua tristeza, ela passou a adoptar um comportamento estranho. Todos os dias, ao cair da tarde, ficava na janela do seu quarto, olhando para o portão da casa, numa ingénua ilusão, esperando ver seu cãozinho voltar. Assim ficou por muitos dias.

 Até que, seu pai com o coração partido por ver a filha assim, tomou-a nos braços e disse:
- Filha, lá em nosso jardim nasceu uma linda flor. Anda, vem comigo contemplá-la desta nova janela, porque nesta, onde vens todos os dias, tu não a consegues ver, anda, vamos abrir aquela e mudar de janela!
Nossa existência é semelhante a uma casa de muitas janelas, que possibilita a contemplação de várias paisagens.

 

O problema é que muitos fazem da vida uma casa de uma única janela. E ali, ficam debruçadas, por anos.

Quando alguém age assim, o foco da sua atenção fica limitado, possibilitando-o de ver outras paisagens. Na vida, às vezes, temos que mudar de janela, para contemplar o novo ao nosso redor.

Uma janela que precisa ser fechada é a do ressentimento.

Quem fica debruçado sobre esta janela olha a vida pelo ângulo da amargura, do desencanto, da tristeza profunda.

A pessoa ressentida, perde a confiança no amor, não investe em novos relacionamentos, fecha as portas para o perdão e tem visão muito negativa da vida.

Muda de janela!

Outra janela que precisa ser fechada é a do medo.

O medo é um mal terrível. Milhares de pessoas estão fixadas nesta janela.

Somente vêem os perigos, os obstáculos, as dificuldades. Na mente delas não existem sonhos, só pesadelos, o que estes têm de bom é que nos possibilitam acordar.

Quem fica a olhar a vida através da janela do medo, só contempla o caos.

Troca a janela do medo, pela da coragem. Ela desperta em nós a determinação e o optimismo.

Medo é a derrota antecipada. Terrível é a vida dos que se fixaram na janela do passado. Não vêem nada em sua frente a não ser motivos para se lamentar.

Quem vive debruçado sobre o passado não consegue vislumbrar o futuro.

Muda de janela!

Mude para a janela da esperança.

Ela nos faz sonhar com dias melhores.

Quem quer vencer na vida, precisa ter a reflexão no passado, os pés no presente e os olhos no futuro, e caminhar sempre nesse direcção!... Muda de janela e vê que tu não está só.

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contado por Jorge Oliveira às 17:02

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Quarta-feira, 5 de Março de 2008

A Noite em que a Noite Não Chegou

Um dia, mal acordou, a noite foi espreitar pela janela e reparou que já era quase noite. «Estou atrasada!», pensou ela ao ver que o Sol já tinha desaparecido e os candeeiros começavam a acender-se.

Mas, nesse dia, ou nessa tarde, ou nessa noite, a noite sentia-se muito preguiçosa.
Gostava muito de estar ali, no quentinho dos lençóis, mas à noite não podia.
Tinha sempre que fazer. Contrariada, deu uma volta e outra volta, desenroscou-se, enroscou-se e pensou 1á para consigo: «Estou farta!»

Havia muitas, muitas noites desde o início dos tempos que a noite chegava à hora certa sem faltar um só dia. «E tudo isto para quê?», perguntou ela de si para si, «Só para que o vaidoso do Sol possa ir mostrar a sua linda cabeleira dourada ao outro lado do mundo... Hoje, não saio daqui... O Sol que se amanhe!»

Olhando para o seu antiquíssimo fato de trabalho, metade feito de estrelas, metade de escuros trapos, a noite resolveu por uma vez ficar na cama.

«O pôr-do-sol que se aguente por ai, a pairar no meio do céu, até que nasça o dia! Está resolvido. Hoje, ninguém me tira daqui l»

Assim, sem querer saber de mais nada, a noite deixou-se ficar na cama toda satisfeita, com uma chávena de chá numa mão e um livro de histórias na outra.

Quando perceberam que a noite não chegava, as pessoas, os bichos, os candeeiros e as flores começaram ajuntar-se às portas da noite. Os autocarros e os girassóis queriam ir dormir. Os mochos; as corujas e os guardas-nocturnos queriam sair para o trabalho. Por isso se puseram todos a gritar: «Venha a noite!»

Venha a noite! Então, nunca mais chega?! É preciso fazer cair a noite!»

Mas era tão alta a casa onde a noite morava que ninguém se atrevia sequer a tentar chegar lá acima.

Foi então que apareceu um menino rabino que pediu «Com licença...» a toda a gente e se pôs a trepar pelos últimos raios de sol. Num equilíbrio despachado, pôs um pé numa nuvem, outro num cometa e, em menos de nada, chegou junto da noite.

De tão entretida com o seu livro de histórias, a noite nem deu por nada. E mesmo que desse nem podia adivinhar. Não estava habituada a meninos e aos seus doces passos de algodão.

De mansinho, o menino rabino pôs-se a fazer-lhe cócegas nos pés. A noite desatou a rir às gargalhadas. «Ah, Ah, Ah! - Ah., Ah, Ah.!» Tanto se riu a noite que caiu da cama abaixo. E caindo, passou por estrelas, luas e sóis. Todas as luzes se apagaram a sua, passagem e um manto muito grande, negro, de cetim, foi cobrindo aos poucos o mundo inteiro.

O menino rabino, do esforço que fez, ficou tão cansado e com tanto sono que nem perdeu tempo. Deitou-se logo na cama da noite e, antes de adormecer, voltou-se para ela que lá em baixo já tomara conta do mundo inteiro e disse-lhe baixinho: «Adeus, noite... Até amanhã... Boa noite...»

Fascinou-me esta história de José Fanha, até fico com receio de escrever algo sobre ela, é certo que não estou à sua altura, com tamanha imaginação e inspiração, espero com estas palavras não deturpar a sua verdadeira essência.

O fascínio vem todo das crianças, do sonho, do mundo que me muito encanta e me ensina, sem ele, eu já mais conseguiria ter esperança e sorrir por um amanhã, em que a noite não chegou, pois todas as noites são noite... Que bom ser criança corajosa, atrevida... quem não tem essa vontade? Só elas se aventuram a subir bem alto, sem o receio de cair, sem muito pensar... com um puro e simples gesto... são capazes de tudo, para tudo arranjam solução e numa expressão cheia de ternura e, permitam-me dizer, tão «fofinha», fecham os olhos despreocupados e adormecem num sono que eu tanto gostaria de o tornar a ter...

Para mim... basta olhar uma criança, para me sentir Feliz, pois neste mundo adulto, destas coisas dos adultos, e lhes conto um segredo: «eu não me entendo lá muito bem».

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contado por Jorge Oliveira às 16:49

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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

O Escravo do Sec. XXI

Passeio por um caminho solitário.
Desfruto do ar, do sol, dos pássaros
E do prazer de ser levado pelos meus pés
Para onde quer que eles me levem.
De um lado do caminho
Encontro um escravo a dormir.
Aproximo-me e descubro que está a sonhar.
Pelas suas palavras e expressões adivinho...
Sei o que sonha:
O escravo está a sonhar que é livre.
A expressão do seu rosto reflecte paz e serenidade.
Pergunto-me...
Devo acordá-lo
E mostrar-lhe que é apenas um sonho
Para que saiba que continua a ser um escravo?
Ou devo deixá-lo dormir o tempo todo que puder,
Desfrutando, nem que seja apenas em sonhos,
Da sua realidade fantasiada?

Qual a reposta correcta?

Não há uma resposta correcta.
Cada um deve encontrar a sua própria resposta e não pode ir procurá-la fora de si mesmo.
Existe quem ficaria paralisado à frente do escravo, sem saber o que fazer.
Mas eu vou-te dar-te uma ajudinha. Pode ser que te sirva para alguma coisa. Enquanto estiveres paralisado, aproxima-te do escravo e observa-o. Se o escravo for eu, não hesites:

ACORDA-ME!

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contado por Jorge Oliveira às 17:41

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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2007

A Corrente e a estaca

Quando eu era pequeno, adorava o circo e aquilo de que mais gostava eram os animais. Cativava-me especialmente o elefante que, como vim a saber mais tarde, era também o animal preferido dos outros miúdos. Durante o espectáculo, a enorme criatura dava mostras de ter um peso, tamanho e força descomunais... Mas, depois da sua actuação e pouco antes de voltar para os bastidores, o elefante ficava sempre atado a uma pequena estaca cravada no solo, com uma corrente a agrilhoar-lhe uma das suas patas.

No entanto, a estaca não passava de um minúsculo pedaço de madeira enterrado uns centímetros no solo. E, embora a corrente fosse grossa e pesada, parecia-me óbvio que um animal capaz de arrancar uma árvore pela raiz, com toda a sua força, facilmente se conseguiria libertar da estaca e fugir.
O mistério continua a parecer-me evidente.
O que é que o prende, então?
Porque é que não foge?
Quando eu tinha cinco ou seis anos, ainda acreditava na sabedoria dos mais velhos. Um dia, decidi questionar um professor, um padre e um tio sobre o mistério do elefante. Um deles explicou-me que o elefante não fugia porque era amestrado.
Fiz, então, a pergunta óbvia:
- Se é amestrado, porque é que o acorrentam?
Não me lembro de ter recebido uma resposta coerente. Com o passar do tempo, esqueci o mistério do elefante e da estaca e só o recordava quando me cruzava com outras pessoas que também já tinham feito essa pergunta.
Há uns anos, descobri que, felizmente para mim, alguém fora tão inteligente e sábio que encontrara a resposta:
O elefante do circo não foge porque esteve atado a uma estaca desde que era muito, muito pequeno.

Fechei os olhos e imaginei o indefeso elefante recém-nascido preso à estaca. Tenho a certeza de que naquela altura o elefantezinho puxou, esperneou e suou para se tentar libertar. E, apesar dos seus esforços, não conseguiu, porque aquela estaca era demasiado forte para ele.

Imaginei-o a adormecer, cansado, e a tentar novamente no dia seguinte, e no outro, e no outro... Até que, um dia, um dia terrível para a sua história, o animal aceitou a sua impotência e resignou-se com o seu destino.
Esse elefante enorme e poderoso, que vemos no circo, não foge porque, coitado, pensa que não é capaz de o fazer.

Tem gravada na memória a impotência que sentiu pouco depois de nascer.
E o pior é que nunca mais tornou a questionar seriamente essa recordação.
Jamais, jamais tentou pôr novamente à prova a sua força...

Todos somos um pouco como o elefante do circo: seguimos pela vida fora atados a centenas de estacas que nos coarctam a liberdade.

Vivemos a pensar que «não somos capazes» de fazer montes de coisas, simplesmente porque uma vez, há muito tempo, quando éramos pequenos, tentámos e não conseguimos.
Fizemos, então, o mesmo que o elefante e gravámos na nossa memória esta mensagem: «Não consigo, não consigo e nunca hei-de conseguir.»
Crescemos com esta mensagem que impusemos a nós mesmos e, por isso, nunca mais tentámos libertar-nos da estaca.

Quando, por vezes, sentimos as grilhetas e as abanamos, olhamos de relance para a estaca e pensamos: «Não consigo e nunca hei-de de conseguir».
Vivemos condicionados pela lembrança de uma pessoa que já não existe, que não foi capaz. A única maneira de saber se somos capazes é tentar novamente de corpo e alma... e com a força do coração.

 

Nota: Os comentários já feitos a este post, não dizem respeito a este post, mas a um post mais antigo que tinha sido publicado aqui em vez deste. Dado ao facto de estar a actualizar o meu blog, com post recentes, reterei os antigos, deixando, no entanto, os comentários.

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Sábado, 1 de Dezembro de 2007

O Diamante Escondido

Esta, é de certo a maior prenda que vos posso oferecer, quer em escrita (bastante grande) quer em sentimento, não deixando, por isso de ser apenas uma pequena lembrança. Peço desculpa, desde já, a quem não gosta de ler, pois não V/ poderei oferecer mais nada.
Num país longínquo, vivia um camponês.

Ele era dono de um pequeno pedaço de terra, no qual cultivava cereais, e de um jardinzinho que fazia as vezes de horta, onde a sua mulher plantava umas quantas hortaliças para ajudar no parco orçamento familiar.

Um dia, enquanto trabalhava no campo, puxando com o seu próprio esforço um rudimentar arado, viu entre os bocados de terra uma coisa que brilhava intensamente. Quase desconfiado, aproximou-se e pegou nela. Era uma espécie de vidro enorme. Ficou surpreendido com o seu brilho ofuscante quando os raios de sol incidiam nele. Percebeu que se tratava de uma pedra preciosa e que devia ter um grande valor.

 Por instantes, a sua cabeça começou a sonhar com tudo o que poderia fazer se vendesse o brilhante, mas depois pensou que aquela pedra era uma espécie de oferta do céu e que devia cuidar dela e usá-la apenas em caso de emergência.

O camponês terminou a sua tarefa e voltou para casa, levando consigo o diamante.

Teve medo de guardar a jóia em casa, portanto, quando anoiteceu, saiu para o jardim, fez um buraco na terra, entre os tomateiros, e enterrou o diamante. Para não se esquecer de onde enterrara a jóia, assinalou o lugar com uma rocha amarelada que encontrou por ali.
Na manhã seguinte, o camponês chamou a mulher, mostrou-lhe a rocha e pediu-lhe para nunca mudar a pedra do sítio. A mulher perguntou-lhe porque é que aquela rocha tinha de ficar no meio da sua horta. O camponês, não se atreveu a contar-lhe a verdade, com medo de preocupa-la, por isso disse-lhe:

- Esta pedra é muito especial. Enquanto estiver nesse lugar, entre os tomateiros, teremos sorte.

A mulher não pôs em causa aquele desconhecido fervor supersticioso do marido e entreteve-se a cuidar dos tomateiros.

O casal tinha dois filhos: um menino e uma menina. Um dia, quando a menina tinha dez anos, perguntou à mãe o que era aquela pedra no jardim.

- É para dar sorte - explicou a mãe. E a menina aceitou a resposta.

Uma manhã, quando a menina ia a sair para a escola, aproximou-se dos tomateiros e tocou na rocha amarelada (naquele dia, tinha um exame muito difícil).
Por mero acaso, ou porque a menina fora para a escola com mais confiança em si, a verdade é que o exame lhe correu muito bem e a menina confirmou, assim, «os poderes» da pedra.

Naquela tarde, quando a pequenita voltou para casa, levou uma pequena pedra amarelada e colocou-a ao lado da outra.
- Que é isso? - perguntou a mãe.
- Se uma pedra dá sorte, duas hão-de dar-nos ainda mais - disse ela, com uma lógica indiscutível.

A partir daquele dia, sempre que a menina encontrava uma daquelas pedras levava-a para junto das anteriores.

Como num jogo de cumplicidades, ou talvez para acompanhar a sua filha, também a mãe começou, pouco tempo depois, a empilhar pedras junto às da filha.

O filho, por seu lado, cresceu com o mito das pedras enraizado na sua vida. Desde pequeno, tinham-lhe ensinado a empilhar pedras amareladas ao lado das anteriores.
Um dia, o menino trouxe uma pedra esverdeada e empilhou-a com as outras...
- Que significa isto, meu filho? - ralhou a mãe.

- Achei que a pilha ia ficar mais bonita com um toque de verde - explicou o rapaz.
- Nem pensar, filho. Tira já essa pedra de junto das outras.
- Porque é que não posso pôr esta pedra verde com as outras? - perguntou o menino, que sempre fora muito rebelde.
- Porque... eh... - balbuciou a mãe (ela não sabia porque é que só as pedras amareladas davam sorte. Lembrava-se apenas das palavras do marido, a dizer que «uma pedra como esta, entre os tomateiros, dá sorte» ).
- Porquê, mamã, porquê?
- Porque... as pedras amareladas só dão sorte se não houver pedras de outras cores por perto - inventou a mãe.
- Não pode ser - contra-argumentou o menino. - Porque é que não hão-de dar sorte estando junto das outras?
- Porque... eh... ah... as pedras da sorte são muito ciumentas.
- Ciumentas? - repetiu o jovem, com uma gargalhada irónica. - Pedras ciumentas? Isso é ridículo!
- Olha, não sei responder a essas perguntas sobre as pedras. Se queres saber mais, pergunta ao teu pai - disse a mãe.
E foi tratar dos seus afazeres, não sem antes tirar a intrusa pedra esverdeada que o rapaz trouxera.

Nessa noite, o menino esperou até tarde que o seu pai voltasse do campo.
- Papá, porque é que as pedras amareladas dão sorte? - perguntou, assim que o pai pôs o pé dentro de casa. - E porque é que as esverdeadas não dão? E porque é que as amarelas
dão menos sorte se houver uma verde por perto? E porque é que têm de estar entre os tomateiros?
...E teria continuado a fazer perguntas sem esperar pelas respostas, se o pai não tivesse levantado a mão a pedir silêncio.
- Amanhã, filho, vamos juntos para o campo e eu respondo às tuas perguntas.
- E porquê só amanhã...? - quis continuar o jovem.
- Amanhã, filho, amanhã - interrompeu o pai.

Na manhã seguinte, muito cedo, quando todos dormiam em casa, o pai aproximou-se do jovem, acordou-o com ternura, ajudou-o a vestir-se e levou-o para o campo.
- Olha, filho. Até agora não te contei isto, porque achava que não estavas preparado para saber a verdade. Mas hoje parece-me que cresceste, que já és um homenzinho e que estás em condições de saber uma coisa e guardar segredo enquanto for necessário.
- Que segredo, papá?

- Já to conto. Todas essas pedras estão entre os tomateiros para marcar um determinado lugar no jardim. Debaixo dessas pedras todas está enterrado um valioso diamante, que é o tesouro desta família. Não quis que ninguém soubesse, porque achei que teriam ficado preocupados. Como agora partilho este segredo contigo, terás a partir de hoje a responsabilidade de guardar o segredo familiar... Um dia, terás os teus próprios filhos e um dia saberás que um deles tem de ser informado do segredo. Nesse dia, levarás o teu filho para longe de casa e contar-lhe-ás a verdade sobre a jóia escondida, como hoje eu te estou a contar a ti.

O pai deu um beijo na face do filho e continuou.
- Guardar um segredo consiste, também, em saber quando é o momento e quem é a pessoa que pode ser digna dele.

Até chegar o dia da escolha, deves deixar que os outros membros da família, todos os outros, acreditem no que quiserem sobre as pedras amarelas, verdes ou azuis.

- Podes confiar em mim, papá - disse o jovem, e esticou-se para parecer mais alto.
...Passaram-se anos. O velho camponês morreu e o jovem fez-se homem. Também teve os seus filhos e, de entre todos eles, houve apenas um que soube, no momento certo, do segredo do brilhante. Todos os outros acreditavam na sorte que as pedras amareladas davam.

Durante anos e anos, geração após geração, os membros daquela família acumularam pedras no jardim da casa. Formara-se aí uma enorme montanha de pedras amareladas, uma montanha que a família honrava como se fosse um enorme talismã infalível.
Só um homem ou uma mulher de cada geração era depositário da verdade sobre o diamante. Todos os outros adoravam as pedras...
Até que um dia, vá-se lá saber porquê, o segredo se perdeu.
Talvez um pai tenha morrido subitamente. Talvez um filho não tenha acreditado na história que lhe haviam contado. A verdade é que, a partir daquele momento, houve quem continuasse a acreditar no valor das pedras e houve, também, quem questionasse aquela velha tradição. Mas nunca mais ninguém se lembrou da jóia escondida...

Este conto de I. L. Peretz, como todas as histórias, ajuda-nos a compreender e a dar sentido à vida. Trazem para bem perto de nós uma realidade que parece tão obscura, e que meramente se ilumina com a sua simplicidade.
Natal é por excelência uma época de luzes. Também nós podemos fazer brilhar uma luz, dando mais significado às pequenas coisas e desligarmos do valor real dos diamantes (pedras preciosas, mas raras).

Todos falamos em simples coisas, mas poucos são aqueles que as sabem encontrar. Um diamante, apesar da sua composição físico-química simples, é uma pedra rara, que às vezes teimamos em procurar.

Este conto mostra-nos que não precisamos de saber a verdadeira essência e grandiosidade das coisas ou das pessoas para podemos viver felizes.

Ptolomeu defendeu a teoria geocêntrica em que o Sol e as estrelas moviam-se em círculos, sendo o centro da trajectória a Terra. Copérnico, defendeu a teoria heliocêntrica, o Sol estaria em repouso e os planetas, incluindo a Terra, giravam em torno dele em órbitas circulares, mais tarde confirmada por Galileu.

Independente da verdade, sempre os nossos antepassados viram os Sol, as estrelas, e a lua, como nós hoje os vemos, e assim continuará a ser por muito mais tempo.

Se um dia dermos um sorriso e ensinarmos aos nossos filhos que aquela lua é a mesma que nos fez sorrir a nós e a eles, no futuro, por mais longe que esteja, mesmo que outra verdade seja, o sol, as estrelas e a lua, serão sempre os mesmos e, se nessa altura, quando alguém sorrir para a lua, como nós fizemos, nós também estaremos sorrindo com essa pessoa.


Eu apenas falei no sol, estrelas e lua, porque se mantêm assim duraste biliões de anos, mas aqui na terra existem as flores, o céu, as pedras e um quase infinito de coisas pequenas que quando as olhamos, seremos aqueles que as irão admirar no futuro, basta, tão pouco, só para isso, transmitir o nosso segredo aos nossos descendentes, para que eles possam sentir nessa altura o mesmo que sentimos, estando assim, a contribuir, para que não aconteça o que eu chamo «a queda do último império» – que são os sentimentos.
Por fim, atrevo-me a dizer, que sentindo tudo isto, estaremos todos perante aeternidade.

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contado por Jorge Oliveira às 21:50

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