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Quinta-feira, 20 de Março de 2008

O Carochinha e o João Ratão da Net.

A história que vou contar.
já multa gente a contou.
As rimas que vou rimar.
já multa gente as rimou.

Nesta história vão entrar
quem o destino marcou:
desgraças, noivas sem par
um rato que escorregou...

Que a história que vou contar
é história de luto e dor.
Em história assim similar
muito sofre o contador.

Pudesse eu remediar
o como a história acabou,
que não estaria a chorar 
ainda ela mal começou. 

Mas já que vou começar
e alguma vez há-de ser,
vejo num quadro exemplar
a Carochinha a varrer.

Menina Carocha Barata
de cara muito laroca
corpinho vestindo bata
não me toques... Quem lhe toca?

No meio do pó do varrer
encontrou uma moeda,
«Estou rica. Não querem ver!»
Aqui a história se enreda.

Acorreram as vizinhas
cada qual com seu conselho:
«Compre fitas e lacinhos.
Compre brincos. Compre espelhos .»

Só o espelho não comprou
que o espelho que queria ter
eram dois olhos que a vissem
na janela do bem-querer.

Sou Carochinha assisada.
Sou bonita e perfeitinha.
Quem me quer para namorada?
Quem me diz «Tu vais ser minha?»

Quem me chama «Meu amor,
bichaninha» e ao ouvido?
Quem me traz do seu calor?
Quem entende o que eu nem digo?

E cantando, apregoava
a cantiga ladainha:
«Quem quer, quem quer, quem quer
casar com a Carochinha?»

«Quero eu» e era um boi.
«Quero eu» e era um cão.
«Quero eu» e era um gato.
E ela a todos que não.

«Quero eu» e era um burro.
«Quero eu», era um pavão.
«Quero eu» e era um galo.
E ela a todos que não.

Enfeitada, apregoava,
com colares de camarinha:
«Quem quer, quem quer, quem quer
casar com a Carochinha?»

«Quero eu», disse-lhe um rato.
«E porquê?», a Carochinha.
«Porque sou o rei do mato
e tu serás a rainha.

Rainha de todo o reino
rainha do coração
minha rainha, só minha
diz-me que sim, nunca não.»

E com palavras assim
em meiga voz de paixão
lá ficou a Carochinha
cativa do João Ratão.

Combinado o casamento
juntaram comeres para a boda
dez feijões de cozimento
que era a riqueza toda.

O padrinho deu toucinho
a madrinha, uma hortaliça.
Do merceeiro, fiado,
também veio uma chouriça !

Ficou o caldo a cozer
enquanto se foram casar.
Nisto disse para a mulher:
«E se a sopa se pegar?»

E se a sopa se pegar?
E se a sopa se pegou?
E se ficamos sem jantar?
Vou lá eu e venho e vou.

Vou lá e venho e vou.
Vou lá e venho e ia.
A Carochinha esperava
e o noivo não aparecia.

Vou lá eu e venho e vou.
Vou lá eu e venho e ia.
A Carochinha chorava. 
Mau agouro que teria.

Chegados aqui, paramos
atalhamos, suspendemos.
A história tem tantos anos
e nós ainda a tememos.

E nós ainda trememos
e a história ainda nos dói
neste transe e desventura
do ratinho nosso herói.

Ia casar-se feliz
com a linda Carochinha...
Foi tentado pelo cheiro
que saía da cozinha...

Empoleirou-se num banco
para provar o feijão.
Deu o banco um solavanco
ficou-lhe no caldo a mão.

Logo após este desastre,
a outra mão lá ficou
e um pé e outro pé
e todo o corpo afundou.

Coitado do João Ratinho
Coitado do João Ratão,
que morreu cozido, assado
guisado no caldeirão.

«Onde estás, meu ratãozinho»,
chamou-o a noiva, em pranto,
mas só topou, na cozinha,
com o chapéu, a um canto.

Quis ir mexer o feijão
para o caldo não bispar
e foi dar, no caldeirão,
com o marido a boiar.

Carochinha em altos gritos
tudo à roda atordoou.
Condoída, uma tripeça
logo ali se desmanchou.

Logo ali se desmanchou
logo ali se desmanchava
e uma porta perguntou
que desgraça se passava.

Mal soube do sucedido
a porta deu o alarme:
«Se morreu o João Ratão
fico a abrir-me e a fechar-me.»

Mal soube do sucedido
o fecho deu o alarme:
«Se morreu o João Ratão
fico todo a desmanchar-me.»

Mal soube do sucedido
o pinheiro deu o alarme:
«Se morreu o João Ratão
fico a puxar-me, a arrancar-me.»

Mal soube do sucedido
a pomba deu o alarme:
«Se morreu o João Ratão
fico eu a depenar-me.»

Mal soube do sucedido
a fonte deu o alarme:
«Se morreu o João Ratão
fico sem gota, a secar-me.»

A rainha veio à fonte
e viu a fonte sequinha,
de luto pelo João Ratão
e com dó da viuvinha.

A rainha mal tal soube
logo ali se condoeu
e disse para quem a ouviu:
«Choram todos. Choro eu .»

Veio o rei, viu-a a chorar
e indagou da razão.
A rainha lhe contou
da morte do João Ratão.

Pôs-se o rei, numa lamúria
de cortar o coração:
«Já não quero mais ser rei
se morreu o João Ratão .»

O mundo quase findou,
choram mil olhos por ti.
Se até um rei abdicou!...
E a história acaba aqui.

 

(Histórias Tradicionais Portuguesas Contadas de Novo)

 António Torrado

Há por ai muita Carochinha (na grande janela da Net as há), à espera de ser rainha, que um dia lhe apareça um lindo príncipe João Ratão, bem parecido, janota e bonitão e se ter um bruto carrão, tanto maior será o seu encanto.

 

Até que um dia o milagre acontece, a fábula passa de sonho à realidade. Eis o João Ratão, um bonito rapazão, mas que belo garanhão! - Vinde cá minha Carochinha, vou-te fazer um juramento, nunca te hei-de atraiçoar, és, de todas, a mais linda rainha, e contigo quer desposar, um e dois dias de amor, sempre com a promessa de que para sempre no seu coração irá morar.


Mas o João Ratão, grande glutão, aproveita para tudo comer e depois, sem temer, acaba por cair em outro caldeirão – "Adeus Carochinha que mais não vos torno a ver. "


A história acaba aqui, a Carochinha sai a chorar, e lastima-se, janelas fechadas, triste desanima por toda aquela desgostosa ruína...

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Domingo, 9 de Março de 2008

ABRE UMA NOVA JANELA

Conta-se que uma certa menina tinha um lindo cãozinho de estimação.


Ela devotava muito carinho e atenção por ele. Todos os dias, ao cair da tarde, ficava na varanda de sua casa, olhando seu cãozinho brincar. Certo dia, ao voltar da escola, percebeu um movimento intenso e algo estranho no ar...
- O que houve? Perguntou à sua mãe. O cãozinho morrera, um carro o atropelou e o matou.

 Que tragédia, para aquela menina! Após uns dias isolada no quarto, alimentando sua tristeza, ela passou a adoptar um comportamento estranho. Todos os dias, ao cair da tarde, ficava na janela do seu quarto, olhando para o portão da casa, numa ingénua ilusão, esperando ver seu cãozinho voltar. Assim ficou por muitos dias.

 Até que, seu pai com o coração partido por ver a filha assim, tomou-a nos braços e disse:
- Filha, lá em nosso jardim nasceu uma linda flor. Anda, vem comigo contemplá-la desta nova janela, porque nesta, onde vens todos os dias, tu não a consegues ver, anda, vamos abrir aquela e mudar de janela!
Nossa existência é semelhante a uma casa de muitas janelas, que possibilita a contemplação de várias paisagens.

 

O problema é que muitos fazem da vida uma casa de uma única janela. E ali, ficam debruçadas, por anos.

Quando alguém age assim, o foco da sua atenção fica limitado, possibilitando-o de ver outras paisagens. Na vida, às vezes, temos que mudar de janela, para contemplar o novo ao nosso redor.

Uma janela que precisa ser fechada é a do ressentimento.

Quem fica debruçado sobre esta janela olha a vida pelo ângulo da amargura, do desencanto, da tristeza profunda.

A pessoa ressentida, perde a confiança no amor, não investe em novos relacionamentos, fecha as portas para o perdão e tem visão muito negativa da vida.

Muda de janela!

Outra janela que precisa ser fechada é a do medo.

O medo é um mal terrível. Milhares de pessoas estão fixadas nesta janela.

Somente vêem os perigos, os obstáculos, as dificuldades. Na mente delas não existem sonhos, só pesadelos, o que estes têm de bom é que nos possibilitam acordar.

Quem fica a olhar a vida através da janela do medo, só contempla o caos.

Troca a janela do medo, pela da coragem. Ela desperta em nós a determinação e o optimismo.

Medo é a derrota antecipada. Terrível é a vida dos que se fixaram na janela do passado. Não vêem nada em sua frente a não ser motivos para se lamentar.

Quem vive debruçado sobre o passado não consegue vislumbrar o futuro.

Muda de janela!

Mude para a janela da esperança.

Ela nos faz sonhar com dias melhores.

Quem quer vencer na vida, precisa ter a reflexão no passado, os pés no presente e os olhos no futuro, e caminhar sempre nesse direcção!... Muda de janela e vê que tu não está só.

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contado por Jorge Oliveira às 17:02

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Terça-feira, 4 de Março de 2008

Às 7 em Ponto

Numa das paredes da minha sala, encontra-se um bonito relógio antigo, que outrora foi dos meus pais e por sua vez já era dos meus avós, mas que deixou de trabalhar. Os ponteiros, parados praticamente desde sempre, assinalam imperturbáveis a mesma hora: as sete em ponto.
A maior parte do tempo, o relógio é apenas um inútil objecto de decoração numa parede branca, vazia. No entanto, há dois momentos durante o dia, dois fugazes instantes, em que o velho relógio parece renascer das cinzas como uma fénix.
Quando todos os relógios da cidade, nos seus ritmos enlouquecidos, marcam as sete e os cucos, e os gongos das máquinas fazem soar sete vezes o seu repetido canto, o velho relógio do meu quarto parece ganhar vida. Duas vezes por dia, de manhã e à noite, o relógio sente-se em completa harmonia com o resto do Universo.
Se alguém olhar para o relógio apenas nesses dois instantes, diria que funciona às mil maravilhas... mas, passado esse momento, quando os restantes relógios calam os seus cantos e os ponteiros prosseguem o seu monótono caminho, o meu velho relógio perde o passo e permanece fiel aquela hora em que, um dia, deteve o seu andar.
E eu adoro este relógio. Quanto mais falo dele, mais o adoro, porque cada vez mais sinto que sou parecido com ele.
Também eu estou parado no tempo. Também eu me sinto preso e imóvel. Também eu sou, de alguma maneira, um adorno inútil numa parede vazia.
Mas desfruto também de momentos fugazes em que, misteriosamente, chega a minha hora.
Durante esses momentos, sinto que estou vivo. Tudo se torna claro e o mundo afigura-se-me maravilhoso. Consigo criar, sonhar, voar, dizer e sentir mais coisas nesses instantes do que no resto do tempo. Estas conjunções harmónicas ocorrem e repetem-se uma e outra vez, como uma sequência inexorável.
A primeira vez que o senti, tentei agarrar-me a esse instante, pensando que o poderia fazer durar para sempre. Mas não. Como acontece com o meu amigo relógio, também a mim se me escapa o tempo dos demais.
...Passados esses momentos, os outros relógios, que vivem dentro de outros homens, continuam a sua rotação e eu volto à rotineira morte estática, ao meu trabalho, às minhas conversas de café, ao meu entediado passo a que costumo chamar vida.
Mas sei que a vida é outra coisa.
Sei que a vida, na verdade, é a soma daqueles momentos, ainda que fugazes, nos permitem perceber a sintonia com Universo.
Quase toda a gente, coitada, está convencida de que vive.
Existem apenas momentos de plenitude e quem não o souber e teimar em viver para sempre, ficará condenado ao mundo da passagem cinzenta e repetitiva do quotidiano.
Por isso te adoro, velho relógio. Porque somos a mesma coisa, tu e eu.
Esta metáfora fabulosa ensina-nos: que talvez todos vivamos apenas na harmonia de alguns momentos. Talvez agora, neste presente, a hora da verdadeira vida coincida com a tua própria hora, todos temos essa hora, desfruta-a. Talvez passe.... demasiado pressa. Esta é uma paupérrima jóia de Paupini. 

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contado por Jorge Oliveira às 15:45

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Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

Uma Prenda Diferente

O Sr. Silva está furioso. O filho da vizinha, um bebé de apenas dez dias, voltou a acordá-lo. Chora muito. E chora com muita força.

Depois do almoço, o Sr. Silva gosta de dormir uma horita mas o bebé do lado não o deixa.
– Que criança horrível – resmunga, às voltas no sofá.

A vizinha trouxe-a para casa há três dias, e há três dias que ela começa a gritar de cada vez que o Sr. Silva quer fazer a sesta.

Hoje sente-se particularmente incomodado porque está desiludido e de mau-humor. É o seu aniversário. Faz sessenta anos, mas ninguém lhe deu os parabéns. Ninguém lhe mandou um postal. Na caixa do correio só encontrou um prospecto de publicidade que amarrotou e meteu de imediato no fogão.

Durante algum tempo, o Sr. Silva olha fixamente para a parede que o separa da casa da vizinha. Depois, levanta-se de um salto e atravessa a sala com o punho erguido. Enfurecido, bate na parede até a mão lhe doer.

– Ora ainda bem! – diz, satisfeito. O bebé deixara de chorar de um momento para o outro.
Naquele instante, toca a campainha da porta.

Do lado de fora, a vizinha, com o bebé nos braços, sorri embaraçada para o Sr. Silva.

– Desculpe – disse. – Eu pensei que...
– O quê? – pergunta o Sr. Silva de testa franzida.
– Que tivesse caído ou que se sentisse mal e precisasse de ajuda – disse de uma só vez. – Por isso, vinha ver se precisava de alguma coisa.

– Se eu precisava de alguma coisa? – suspira o Sr. Silva. – Porquê?

"Ela está a falar a sério" – pensa confuso. A vizinha ouviu o bater dele mas percebeu mal: pensou que o vizinho estava a precisar de ajuda.

O Sr. Silva coça a barba rala, olha para a cara vermelha do bebezinho e pergunta:
– Ele é ainda muito novinho, não?

– Tem dez dias e quatro horas – responde a vizinha. – Chama-se Catarina. O meu marido e eu estamos muito felizes, porque era mesmo uma menina que queríamos.

O Sr. Silva tossica.

– Oh... ela já tem cabelo!

– Ah, um ou outro, muito finos – diz a vizinha, recuando devagar em direcção à sua porta. – Desculpe, agora tenho de ir dar-lhe de comer. Eu sigo as recomendações à risca, sabe.
– Claro! – diz o Sr. Silva.

Pela fresta da porta, a vizinha acena com a cabeça.

– Fico contente por estar tudo bem com o senhor.

Em casa, o Sr. Silva anda de um lado para o outro profundamente surpreendido. Ela está contente por estar tudo bem com ele. Há uma pessoa que se preocupa com ele. Afinal não está tão só como pensava. O Sr. Silva nem cabe em si de contente. Afinal, sempre recebeu uma prenda de aniversário e, ainda por cima, bem bonita!

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contado por Jorge Oliveira às 15:36

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Sábado, 23 de Fevereiro de 2008

Um Minuto

Ouvindo o tiro, o vizinho entrou naquele apartamento, e ao lado do corpo encontrou uma carta assim escrita:

" Já não dava mais para suportar. Passei a noite toda como um louco pelas ruas. Fui a pé... não tinha condições nem para conduzir.

Perdi meu emprego por injustiça feita contra mim. Nada mais consegui.

Ontem telefonaram avisando que minha pequena moradia no campo foi incendiada. Estava ameaçado de perder este apartamento por não ter podido pagar as prestações.

Só me restou um carro tão desgastado que nada vale.

Afastei-me de todos os meus amigos com vergonha desta humilhante situação. ... e agora, chegando aqui, não encontrei ninguém... fui abandonado e levaram até minhas melhores roupas!

Aquele que me encontrar, faça o que tem que ser feito. Perdão. "


O vizinho dirigiu-se ao telefone para chamar a polícia. Quando esta chegou viu que havia um recado no gravador de mensagens.

Era a voz da mulher do falecido:

" Olá! Sou eu! Liga para a firma!

Eles reconheceram o engano e tu foste chamado de novo para a semana que vem! Dizem que te pagam estes dias e para descansares o resto da semana. O dono do nosso apartamento disse que tem uma boa proposta para não o perdermos. Estamos na nossa casinha de campo. A história do incêndio foi uma brincadeira de mau gosto que alguém resolveu arranjar para entreter os bombeiros! Isso merece uma festa, não achas? Todos os nossos amigos estão vindo para cá. Um beijo! Já coloquei as roupas que mais gostas bagageira do carro. Vem! "

Assim como num minuto é o tempo suficiente para se perder uma vida, também um minuto é tempo suficiente para mudar tudo. No último minuto, espere mais um minuto. Esse minuto pode fazer toda a diferença

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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008

Quem És?

Naquele dia, João levantou-se como sempre às sete da manhã. Como todos os dias, arrastou as suas pantufas até à casa de banho e, depois de tomar um duche, fez a barba e perfumou-se. Vestiu-se com roupa da moda, como era seu hábito, e desceu ao átrio para ir buscar o correio. Aí, deparou com a primeira surpresa do dia: não tinha correspondência!
Durante os últimos anos, a sua correspondência aumentara e constituía um factor importante no seu contacto com o mundo. Um pouco mal-humorado pela ausência de notícias, preparou o seu habitual pequeno-almoço de leite e cereais (como recomendavam os médicos) e saiu de casa.
Tudo permanecia igual: os veículos do costume transitavam pelas mesmas ruas e produziam os mesmos sons na cidade, que se queixava como sempre. Ao atravessar a praça, quase tropeçou no professor Benvindo, um velho conhecido com quem costumava conversar longas horas sobre inúteis questões metafísicas. Cumprimentou-o com um gesto, mas o professor não pareceu reconhecê-lo. Chamou-o pelo nome, mas já ele se afastara e João pensou que não o ouvira: O dia começara mal e parecia que piorava com a ameaça de tédio que lhe pesava na alma. Decidiu voltar para casa, para a leitura e investigação, para esperar as cartas que certamente chegariam a dobrar, para compensar as que pão recebera.
Nessa noite, o homem não dormiu bem e acordou muito cedo. Levantou-se e, enquanto tomava o pequeno-almoço, pôsse a espiar pela janela à espera da chegada do carteiro. Finalmente, viu-o dobrar a esquina e o seu coração deu um salto. No entanto, o carteiro passou à frente da casa dele sem parar. João saiu para a rua e chamou o carteiro para confirmar que não havia cartas para ele, mas o carteiro garantiu-lhe que não tinha nada dentro do saco para aquela morada e confirmou que não havia nenhuma greve dos Correios, nem problemas de distribuição de cartas na cidade.
Em vez de sossegar, João ficou ainda mais preocupado. Passava-se alguma coisa e ele tinha de descobrir o que era. Vestiu o casaco e dirigiu-se para casa do seu amigo Mário.
Assim que chegou, fez-se anunciar pelo mordomo e esperou na sala de estar pelo seu amigo, que não tardou a aparecer. João avançou ao encontro do dono da casa com os braços estendidos, mas este limitou-se a perguntar:
- Desculpe, mas conhecemo-nos? O homem julgou que era uma brincadeira e soltou um riso forçado, pedindo ao outro para lhe servir um copo. O resultado foi terrível: o dono da casa chamou o mordomo e deu-lhe ordem para expulsar o desconhecido que, perante aquela situação, se descontrolou e começou a gritar e a insultar, dando ainda mais motivos ao empregado fardado para o empurrar com violência para a rua...
A caminho de casa, cruzou-se com outros vizinhos que o ignoraram ou agiram como se ele fosse um estranho.
Meteu-se-lhe uma ideia na cabeça: havia uma conspiração contra si e ele cometera uma qualquer estranha falta contra aquela sociedade, que umas horas antes o valorizava e, agora, o rejeitava daquela maneira. No entanto, por mais que pensasse, não conseguia lembrar-se de nada que pudesse ter feito e sido encarado como uma ofensa, muito menos uma ofensa que abrangesse uma cidade inteira.
Nos dois dias seguintes, ficou em casa à espera da correspondência que nunca chegou, ou a desejar a visita de algum dos seus amigos que, estranhando a sua ausência, viesse tocar-lhe à porta para saber dele. Mas nada aconteceu: ninguém se aproximou de sua casa. A empregada doméstica faltou sem avisar e o telefone deixou de tocar.
Embalado por um copito a mais, na quinta noite João decidiu ir ao bar onde se reunia sempre com os amigos para comentar as coisas comezinhas do dia-a-dia. Assim que entrou, viu-os como sempre sentados à mesa do canto, que costumavam ocupar. O gordo Zé contava a mesma velha anedota de sempre e todos o aplaudiam como de costume. O homem pegou numa cadeira e sentou-se perto deles. De repente, fez-se um silêncio lapidar, a mostrar que aquele recém-chegado era indesejável. João não aguentou mais.
- Posso saber o que se passa? Fiz alguma coisa que vos irritou? Digam-me e acabamos já com isto, mas não me tratem assim porque estou a dar em louco.
Os outros entreolharam-se, meio divertidos, meio chateados. Um deles fez girar o dedo indicador sobre a têmpora, diagnosticando o recém-chegado. O homem tornou a pedir uma explicação, depois suplicou e, por fim, caiu ao chão, implorando que lhe explicassem porque é que lhe estavam a fazer aquilo.
Só um deles lhe dirigiu a palavra.
- Meu senhor, nenhum de nós o conhece, portanto não nos fez nada de mal. Aliás, nem sequer sabemos quem você é.
As lágrimas começaram a cair-lhe dos olhos e João saiu do bar, arrastando a sua própria humanidade até casa. Parecia que os seus pés pesavam uma tonelada cada.
Já no seu quarto, estendeu-se em cima da cama. Sem saber como nem porquê, passara a ser um desconhecido, um ausente. Já não existia nas agendas dos seus correspondentes nem na memória dos seus conhecidos, e ainda menos no afecto dos seus amigos. Na sua mente, martelava um pensamento: a pergunta que os demais faziam e que ele próprio começava a fazer-se a si mesmo: «Quem és?».
Saberia realmente responder a essa pergunta? Sabia o seu nome, o seu endereço, o tamanho da sua camisa, o seu número do Bilhete de Identidade e alguns outros dados que o definiam perante os outros. Mas, à parte isso, quem era verdadeira, interna e profundamente? Aqueles gostos e atitudes, aquelas tendências e ideias, seriam realmente suas? Ou eram, como tantas outras coisas, uma tentativa para não defraudar quem esperava que ele fosse quem fora? Algo começava a ficar claro: ser um desconhecido libertava-o de ter de ser de determinada maneira. Fosse ele como fosse, nada mudaria na reacção dos demais para com ele. Pela primeira vez em muitos dias, descobriu uma coisa que o sossegou: estava numa situação que lhe permitia agir como quisesse, sem tentar obter a aprovação do mundo.
Respirou fundo e sentiu o ar como se fosse novo entrando nos seus pulmões. Apercebeu-se de que o sangue lhe fluía nas veias, percebeu o bater do seu coração e surpreendeu-se por, pela primeira vez,

NÃO TEMER.

Agora que, finalmente, sabia que estava só, que sempre o estivera, que só se tinha a si mesmo, agora conseguia rir ou chorar... Mas por si e não pelos outros. Agora, finalmente, sabia: A SUA PRÓPRIA EXISTÊNCIA NÃO DEPENDIA DOS OUTROS.
Descobrira que precisara de ficar sozinho para poder encontrar-se a si mesmo...
Dormiu tranquila e profundamente, e teve sonhos agradáveis. Acordou por volta das dez da manhã, descobrindo que um raio de sol entrava a essa hora pela janela e iluminava o seu quarto de uma maneira maravilhosa.
Sem tomar banho, desceu as escadas a trautear uma canção que nunca ouvira e encontrou uma coisa debaixo da sua porta: uma enorme quantidade de cartas endereçadas a si. 
A empregada doméstica estava na cozinha e cumprimentou-o como se nada tivesse acontecido.
E à noite, no bar, parecia que ninguém se lembrava daquela estranha noite de loucura. Pelo menos, ninguém se dignou fazer qualquer espécie de comentário sobre o sucedido.

Nesta história, tudo voltara à normalidade... excepto ele, felizmente, ele, que nunca mais teria de implorar a ninguém para que o olhasse para poder saber que estava vivo, ele, que nunca mais teria de pedir ao exterior para o definir, ele, que nunca mais sentiria medo da rejeição. Tudo era igual, excepto aquele homem, que nunca mais esqueceria quem era.
Quando não tens consciência do quão dependente estás do olhar das outras pessoas, vives a tremer com medo de seres abandonado(a), algo que todos nós aprendemos a temer. E para não temer, é preciso lutar para ser o que os outros, «que gostam tanto de nós», nos obrigam a ser, nos obrigam a fazer e a pensar. Serás forçado(a) a decidir: aprovação ou solidão. Estarás encurralada entre ser o que deves ser ou não ser nada para ninguém. E a partir de então... poderás ser, mas somente sozinho(a), e somente para ti.

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contado por Jorge Oliveira às 15:17

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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

O Escravo do Sec. XXI

Passeio por um caminho solitário.
Desfruto do ar, do sol, dos pássaros
E do prazer de ser levado pelos meus pés
Para onde quer que eles me levem.
De um lado do caminho
Encontro um escravo a dormir.
Aproximo-me e descubro que está a sonhar.
Pelas suas palavras e expressões adivinho...
Sei o que sonha:
O escravo está a sonhar que é livre.
A expressão do seu rosto reflecte paz e serenidade.
Pergunto-me...
Devo acordá-lo
E mostrar-lhe que é apenas um sonho
Para que saiba que continua a ser um escravo?
Ou devo deixá-lo dormir o tempo todo que puder,
Desfrutando, nem que seja apenas em sonhos,
Da sua realidade fantasiada?

Qual a reposta correcta?

Não há uma resposta correcta.
Cada um deve encontrar a sua própria resposta e não pode ir procurá-la fora de si mesmo.
Existe quem ficaria paralisado à frente do escravo, sem saber o que fazer.
Mas eu vou-te dar-te uma ajudinha. Pode ser que te sirva para alguma coisa. Enquanto estiveres paralisado, aproxima-te do escravo e observa-o. Se o escravo for eu, não hesites:

ACORDA-ME!

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contado por Jorge Oliveira às 17:41

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