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Segunda-feira, 10 de Março de 2008

O DESERTO DE ÁGUA

Escrevi outrora", diz Diolé, "que quem tivesse conhecido o mar profundo já não podia voltar a ser um homem como os outros. É em instantes como este (no meio do deserto) que tenho a prova disso. Pois percebi que mentalmente, enquanto caminhava, eu enchia de água o cenário do Deserto! Na imaginação, eu inundava o espaço que me cercava e no centro do qual caminhava.


Vivia numa imersão inventada. Deslocava-me no centro de uma matéria fluida, luminosa, protectora, densa, que era a água do mar, a lembrança de água do mar. Esse artifício bastava para humanizar aos meus olhos um mundo de uma secura repugnante, conciliando-me com as rochas, com o silêncio, com a solidão, com as toalhas de ouro solar que caíam do céu. Minha própria fadiga estava amenizada. Meu peso apoiava-se em sonho nessa água imaginária.

 
"Percebi então que não era a primeira vez que inconscientemente recorria a essa defesa psicológica. O silêncio e a lenta progressão de minha vida no Saara despertavam em mim a lembrança do mergulho. Uma espécie de doçura banhava então minhas imagens interiores; e na passagem assim reflectida pelo sonho a água aflorava naturalmente. Eu caminhava, trazendo comigo reflexos luzentes, uma espessura translúcida que nada mais era que lembranças do mar profundo.

Philippe Diolé ensina-nos a estar em outro lugar sem mudar-nos de lugar, apenas de natureza, quando tudo em nós parece ser uma imagem deserta, fatalista, moribunda e melancólica.


Um cenário angustiante, cheio de obstáculos, que nos podem reter como uma prisão para a morte, é transformado, as areias infinitas tornam-se em água ilimitada.


Tão somente, basta a imaginação para viver num novo espaço, todos nós somos capazes de transformar areia em água. As imagens fazem parte do nosso ser, estando na base de qualquer imaginação na procura de ser feliz. Nada há quem derive de quimeras e ilusões, as imagens são reais. Nesta história o tempo e o espaço estão aqui sob o domínio da imagem da nossa própria natureza. Que custa tentar?

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contado por Jorge Oliveira às 17:10

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