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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008

Quem És?

Naquele dia, João levantou-se como sempre às sete da manhã. Como todos os dias, arrastou as suas pantufas até à casa de banho e, depois de tomar um duche, fez a barba e perfumou-se. Vestiu-se com roupa da moda, como era seu hábito, e desceu ao átrio para ir buscar o correio. Aí, deparou com a primeira surpresa do dia: não tinha correspondência!
Durante os últimos anos, a sua correspondência aumentara e constituía um factor importante no seu contacto com o mundo. Um pouco mal-humorado pela ausência de notícias, preparou o seu habitual pequeno-almoço de leite e cereais (como recomendavam os médicos) e saiu de casa.
Tudo permanecia igual: os veículos do costume transitavam pelas mesmas ruas e produziam os mesmos sons na cidade, que se queixava como sempre. Ao atravessar a praça, quase tropeçou no professor Benvindo, um velho conhecido com quem costumava conversar longas horas sobre inúteis questões metafísicas. Cumprimentou-o com um gesto, mas o professor não pareceu reconhecê-lo. Chamou-o pelo nome, mas já ele se afastara e João pensou que não o ouvira: O dia começara mal e parecia que piorava com a ameaça de tédio que lhe pesava na alma. Decidiu voltar para casa, para a leitura e investigação, para esperar as cartas que certamente chegariam a dobrar, para compensar as que pão recebera.
Nessa noite, o homem não dormiu bem e acordou muito cedo. Levantou-se e, enquanto tomava o pequeno-almoço, pôsse a espiar pela janela à espera da chegada do carteiro. Finalmente, viu-o dobrar a esquina e o seu coração deu um salto. No entanto, o carteiro passou à frente da casa dele sem parar. João saiu para a rua e chamou o carteiro para confirmar que não havia cartas para ele, mas o carteiro garantiu-lhe que não tinha nada dentro do saco para aquela morada e confirmou que não havia nenhuma greve dos Correios, nem problemas de distribuição de cartas na cidade.
Em vez de sossegar, João ficou ainda mais preocupado. Passava-se alguma coisa e ele tinha de descobrir o que era. Vestiu o casaco e dirigiu-se para casa do seu amigo Mário.
Assim que chegou, fez-se anunciar pelo mordomo e esperou na sala de estar pelo seu amigo, que não tardou a aparecer. João avançou ao encontro do dono da casa com os braços estendidos, mas este limitou-se a perguntar:
- Desculpe, mas conhecemo-nos? O homem julgou que era uma brincadeira e soltou um riso forçado, pedindo ao outro para lhe servir um copo. O resultado foi terrível: o dono da casa chamou o mordomo e deu-lhe ordem para expulsar o desconhecido que, perante aquela situação, se descontrolou e começou a gritar e a insultar, dando ainda mais motivos ao empregado fardado para o empurrar com violência para a rua...
A caminho de casa, cruzou-se com outros vizinhos que o ignoraram ou agiram como se ele fosse um estranho.
Meteu-se-lhe uma ideia na cabeça: havia uma conspiração contra si e ele cometera uma qualquer estranha falta contra aquela sociedade, que umas horas antes o valorizava e, agora, o rejeitava daquela maneira. No entanto, por mais que pensasse, não conseguia lembrar-se de nada que pudesse ter feito e sido encarado como uma ofensa, muito menos uma ofensa que abrangesse uma cidade inteira.
Nos dois dias seguintes, ficou em casa à espera da correspondência que nunca chegou, ou a desejar a visita de algum dos seus amigos que, estranhando a sua ausência, viesse tocar-lhe à porta para saber dele. Mas nada aconteceu: ninguém se aproximou de sua casa. A empregada doméstica faltou sem avisar e o telefone deixou de tocar.
Embalado por um copito a mais, na quinta noite João decidiu ir ao bar onde se reunia sempre com os amigos para comentar as coisas comezinhas do dia-a-dia. Assim que entrou, viu-os como sempre sentados à mesa do canto, que costumavam ocupar. O gordo Zé contava a mesma velha anedota de sempre e todos o aplaudiam como de costume. O homem pegou numa cadeira e sentou-se perto deles. De repente, fez-se um silêncio lapidar, a mostrar que aquele recém-chegado era indesejável. João não aguentou mais.
- Posso saber o que se passa? Fiz alguma coisa que vos irritou? Digam-me e acabamos já com isto, mas não me tratem assim porque estou a dar em louco.
Os outros entreolharam-se, meio divertidos, meio chateados. Um deles fez girar o dedo indicador sobre a têmpora, diagnosticando o recém-chegado. O homem tornou a pedir uma explicação, depois suplicou e, por fim, caiu ao chão, implorando que lhe explicassem porque é que lhe estavam a fazer aquilo.
Só um deles lhe dirigiu a palavra.
- Meu senhor, nenhum de nós o conhece, portanto não nos fez nada de mal. Aliás, nem sequer sabemos quem você é.
As lágrimas começaram a cair-lhe dos olhos e João saiu do bar, arrastando a sua própria humanidade até casa. Parecia que os seus pés pesavam uma tonelada cada.
Já no seu quarto, estendeu-se em cima da cama. Sem saber como nem porquê, passara a ser um desconhecido, um ausente. Já não existia nas agendas dos seus correspondentes nem na memória dos seus conhecidos, e ainda menos no afecto dos seus amigos. Na sua mente, martelava um pensamento: a pergunta que os demais faziam e que ele próprio começava a fazer-se a si mesmo: «Quem és?».
Saberia realmente responder a essa pergunta? Sabia o seu nome, o seu endereço, o tamanho da sua camisa, o seu número do Bilhete de Identidade e alguns outros dados que o definiam perante os outros. Mas, à parte isso, quem era verdadeira, interna e profundamente? Aqueles gostos e atitudes, aquelas tendências e ideias, seriam realmente suas? Ou eram, como tantas outras coisas, uma tentativa para não defraudar quem esperava que ele fosse quem fora? Algo começava a ficar claro: ser um desconhecido libertava-o de ter de ser de determinada maneira. Fosse ele como fosse, nada mudaria na reacção dos demais para com ele. Pela primeira vez em muitos dias, descobriu uma coisa que o sossegou: estava numa situação que lhe permitia agir como quisesse, sem tentar obter a aprovação do mundo.
Respirou fundo e sentiu o ar como se fosse novo entrando nos seus pulmões. Apercebeu-se de que o sangue lhe fluía nas veias, percebeu o bater do seu coração e surpreendeu-se por, pela primeira vez,

NÃO TEMER.

Agora que, finalmente, sabia que estava só, que sempre o estivera, que só se tinha a si mesmo, agora conseguia rir ou chorar... Mas por si e não pelos outros. Agora, finalmente, sabia: A SUA PRÓPRIA EXISTÊNCIA NÃO DEPENDIA DOS OUTROS.
Descobrira que precisara de ficar sozinho para poder encontrar-se a si mesmo...
Dormiu tranquila e profundamente, e teve sonhos agradáveis. Acordou por volta das dez da manhã, descobrindo que um raio de sol entrava a essa hora pela janela e iluminava o seu quarto de uma maneira maravilhosa.
Sem tomar banho, desceu as escadas a trautear uma canção que nunca ouvira e encontrou uma coisa debaixo da sua porta: uma enorme quantidade de cartas endereçadas a si. 
A empregada doméstica estava na cozinha e cumprimentou-o como se nada tivesse acontecido.
E à noite, no bar, parecia que ninguém se lembrava daquela estranha noite de loucura. Pelo menos, ninguém se dignou fazer qualquer espécie de comentário sobre o sucedido.

Nesta história, tudo voltara à normalidade... excepto ele, felizmente, ele, que nunca mais teria de implorar a ninguém para que o olhasse para poder saber que estava vivo, ele, que nunca mais teria de pedir ao exterior para o definir, ele, que nunca mais sentiria medo da rejeição. Tudo era igual, excepto aquele homem, que nunca mais esqueceria quem era.
Quando não tens consciência do quão dependente estás do olhar das outras pessoas, vives a tremer com medo de seres abandonado(a), algo que todos nós aprendemos a temer. E para não temer, é preciso lutar para ser o que os outros, «que gostam tanto de nós», nos obrigam a ser, nos obrigam a fazer e a pensar. Serás forçado(a) a decidir: aprovação ou solidão. Estarás encurralada entre ser o que deves ser ou não ser nada para ninguém. E a partir de então... poderás ser, mas somente sozinho(a), e somente para ti.

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contado por Jorge Oliveira às 15:17

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Sábado, 19 de Janeiro de 2008

RELAÇÔES HUMANAS

Aqueles que deixei de escrever, aqueles que nunca leram o que escrevi, aqueles que, de mais perto, tiveram a oportunidade de me conhecer melhor e para aqueles que são especiais e a todos os outros demais aqui deixo estas linhas.
Todos os dias nos debatemos com o dilema de vários tipos de relações com os outros, sejam elas virtuais ou reais.
Estas relações começam cada vez mais a exigir que se crie, expresse e experencie facetas de nós próprios cada vez mais elevadas, pois a concorrência, em aumento exponencial, surge a toda a hora com meios mais sofisticados, sublimes e grandiosos de forma a se poderem afirmar, notar e atraírem a eles um maior número possível de relações.
Este comportamento deve-se ao facto de as pessoas terem uma necessidade de se identificarem com outras pessoas, acontecimentos e lugares, julgando assim, de uma forma mais ou menos consciente, estar bem com a vida.
Existem aqueles que, em nível mais alto, conseguem ao longe observar todo este cenário, sem entrar em cena e, gozando de uma plenitude cosmogónica, passam ao lado deste tipo de relações. Porém, existem aqueles, que não gozando dessa plenitude e não tendo também a arte ou saber para competir, na ausência de relações com os outros, entram num estado de sentimento de abandono e solidão, uma quase não existência de si próprios.
Deparamo-nos com uma evolução (não necessariamente a mais correcta e construtiva) que nos obriga a recriar novas versões de nós mesmos, para poder ser bem sucedidos neste mundo de relações.
Vemos isto aqui na net, nos nossos empregos, nos lugares onde vivemos, na TV, enfim, por todos os lugares e ficamos muito admirados ou desiludidos quando vemos relações, que julgávamos ser sólidas, sérias e reais fracassarem. Não compreendemos que elas fracassaram porque foram simplesmente iniciadas pelo motivo errado, ou melhor foram iniciadas por motivos não totalmente favoráveis à condição de pessoa de cada um, mas por outros motivos mais interesseiros e oportunos, porque quase todas as pessoas entram no mundo das relações com o objectivo de verificar o que podem tirar ou obter com elas e não o que podem meter nelas.
Entre muitas outras frases, ouvimos frequentemente dizer: «eu não era nada se tu não aparecesses um dia na minha vida» ou «sem ti, a vida não tinha significado», é muito romântico e fica muito liricamente bem em poemas que também eu gosto de fazer, mas quase sempre as coisas mudam e começamos a compreender que afinal o outro lado não nos completa, tudo porque criamos expectativas, exercemos uma pressão enorme para ser toda a espécie de coisas que ele ou ela não é. Acabando por aparecer, por fim, muitas vezes a desilusão, o ressentimento e a raiva.
Vamos olhar para as relações, não com o propósito de ter outra pessoa com a qual nos identificamos ou completamos, mas sim com a qual possamos partilhar a nossa própria plenitude.
O nosso maior teste às relações tem a ver com a forma com que o outro corresponde aos nossos ideais e como nós vimos corresponder os ideais do outro em nós, quando, na verdade, deveria ter a ver com a forma como nós correspondemos aos nossos próprios ideais. Teremos que ser honestos e sinceros com nós mesmo.
A tua relação com o outro fracassa quando a encaras como a maior oportunidade da tua vida para criares e produzires a tua mais elevada conceptualização de outro alguém.
Não interessa o que o outro está a ser, a fazer, a ter, a querer, a exigir. Não interessa o que o outro está a pensar, a esperar, a planear. Só interessa o que tu está a ser em relação a isso. Pode parecer egoísta, mas obsessão pelo outro é o que mata uma relação.

Por fim atrevo-me a dizer que ninguém consegue manter por muito tempo uma relação criada por ela, sem que um dia a verdadeira relação da pessoa com ela mesmo se sobreponha à relação do outro.

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contado por Jorge Oliveira às 15:12

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Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2008

Mais que ensinar, saber ouvir.

Um professor dava aulas a uma turma numerosa.

Pouco a pouco os alunos iam diminuindo.

Até que um dia já só tinha um ouvinte.

O professor disse-lhe:
- Deixaremos a aula para outro dia em que haja mais alunos.
No dia seguinte, o aluno tratou de convencer outros a irem, mas, como ninguém queria, levou consigo uma colecção de bonecos, e distribuiu-os pela sala.

E disse ao professor:
- Hoje trouxe um público numeroso.
Pode dar as suas aulas.

O professor viu os bonecos e disse-lhe:
- Mas são apenas bonecos!
- Sim, é verdade. Mas os alunos que vinham antes, não eram melhores que bonecos porque não sabiam escutar o seu ensino.

- Mas, o que faz a te querer que o meu ensino servirá de alguma coisa para a tua vida? - perguntou o professor.

O aluno apressou-se em responder-lhe:
- Só duas coisas podem ser possíveis, ou o professor pretende apenas falar dos seus conhecimentos, o que até não é uma tarefa difícil, dado que foi para isso que estudou. Pretendendo com isso, simplesmente, querer-se mostrar pretensioso para se afirmar uma pessoa mais inteligente do que nós, ou então, são os meus colegas que não sabem ouvir e escutar em silêncio os conhecimentos que a todos nós nos deseja transmitir, de forma a conseguirmos compreender. Eu acredito na última, entendo e desejo o seu ensino.
Há muitas espécies de ouvintes e de leitores.

Há aqueles que não entendem mais do que os bonecos. Apenas querem-se mostrar, e até são bem sucedidos, mas não aprendem nada. Fechados no ciclo do seu se egocentrismo são incapazes de ouvir ou ler o que os outros também querem transmitir.
Por outro lado, existem aqueles que apenas deixam um rasto silencioso da sua permanente atenção em querer aprender ouvindo e escutando os outros, sem se querer mostrar, mas, sem com isso, querer dizer que não aprende e compreende muito mais que os outros, pois sabe ouvir, ler, entender e aprender.
Não é a escrever ou a falar que fazemos ou outros acreditar em nós, mas sim com os actos, muitas vezes silenciosos, que mostramos ser.
Ensinamos compreendendo que tudo aquilo que queremos transmitir não depende só de quem o dá, mas também de quem ouve.

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contado por Jorge Oliveira às 14:45

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Sábado, 12 de Janeiro de 2008

Uma lição de vida

Um dia um perito em gestão de tempo deu uma palestra a uns estudantes, e para chegar a um ponto usou uma ilustração que eles nunca mais esqueceram. Àqueles alunos, que teriam pela frente um futuro brilhante, disse: "Muito bem, está na altura de fazermos um jogo". Tirou uma jarra de dentro de um saco e pô-la em cima da mesa. De seguida, tirou algumas pedras mais ou menos do mesmo tamanho e foi enchendo cuidadosamente a jarra. Quando ficou cheia até cima e não cabia mais nenhuma pedra, perguntou aos alunos: "A jarra está cheia?" Todos na sala gritaram: "Sim".


Depois perguntou: "Está mesmo?" Voltou a ir ao saco e tirou de lá um saco de gravilha, que deitou para dentro da jarra, fazendo com que cada bocadinho preenchesse os espaços vazios entre as pedras grandes. Depois voltou a perguntar ao grupo: "A jarra está cheia agora?". Desta vez os estudantes responderam: "Talvez não". Certo confirmou o perito.
Voltou a ir ao saco debaixo da mesa e tirou um bocado de areia, que deitou para dentro da jarra e ocupou o espaço entre as pedras e a gravilha. Mais uma vez perguntou: "A jarra agora está cheia?". "Não", gritou a aula inteira. Mais uma vez disse :"Certo".

Agarrou depois num copo de água e deitou para dentro da jarra até ficar mesmo cheia até cima.

Olhou para a aula e perguntou: "Qual é a conclusão desta demonstração?" Um dos alunos levantou a mão e disse: "A conclusão é que por mais que a sua agenda esteja cheia, se tentar arduamente consegue sempre encaixar mais algumas coisas".


Não", disse o orador, essa não é a conclusão. A verdade que esta demonstração nos ensina é: se não pões as pedras grandes primeiro, nunca as vais conseguir pôr depois. E quais são as "pedras grandes" na tua vida? Os pais, as pessoas que amas, a tua educação, os teus sonhos, uma causa que valha a pena, ensinar ou guiar os outros, fazer coisa que gostas, tempo para ti, a tua saúde, os amigos..." (...)

Contos por Palavras:
Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

O Escravo do Sec. XXI

Passeio por um caminho solitário.
Desfruto do ar, do sol, dos pássaros
E do prazer de ser levado pelos meus pés
Para onde quer que eles me levem.
De um lado do caminho
Encontro um escravo a dormir.
Aproximo-me e descubro que está a sonhar.
Pelas suas palavras e expressões adivinho...
Sei o que sonha:
O escravo está a sonhar que é livre.
A expressão do seu rosto reflecte paz e serenidade.
Pergunto-me...
Devo acordá-lo
E mostrar-lhe que é apenas um sonho
Para que saiba que continua a ser um escravo?
Ou devo deixá-lo dormir o tempo todo que puder,
Desfrutando, nem que seja apenas em sonhos,
Da sua realidade fantasiada?

Qual a reposta correcta?

Não há uma resposta correcta.
Cada um deve encontrar a sua própria resposta e não pode ir procurá-la fora de si mesmo.
Existe quem ficaria paralisado à frente do escravo, sem saber o que fazer.
Mas eu vou-te dar-te uma ajudinha. Pode ser que te sirva para alguma coisa. Enquanto estiveres paralisado, aproxima-te do escravo e observa-o. Se o escravo for eu, não hesites:

ACORDA-ME!

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contado por Jorge Oliveira às 17:41

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Sábado, 5 de Janeiro de 2008

Sorte? Azar? Quem sabe?

Conta-se que um lavrador tinha um cavalo.
Com ele fazia os trabalhos do campo.
Um dia, o cavalo fugiu para as montanhas.
Os amigos lamentavam-se ao camponês: Que azar!
Mas ele respondia: - Azar? Sorte? Quem sabe?
Um belo dia o cavalo voltou a casa, trazendo atrás de si outros cavalos selvagens.
As pessoas diziam: - Que grande sorte! E o camponês: Sorte? Azar? Quem sabe?
Estava um dia o filho do camponês domando um dos cavalos selvagens
E este arrastou-o e ele partiu uma perna. O povo dizia: - Que azar!
E o camponês: - Azar? Sorte? Quem sabe?
Por aqueles dias, chegaram à aldeia empregados da junta de freguesia
Para alistar no exército todos os jovens capazes e aptos.
O filho do camponês, por ter a perna partida, ficou excluído,
E pôde continuar a ajudar o velho pai.
Sorte? Azar? Quem sabe?

Estamos acostumados a julgar as coisas como boas e más, muito ligeiramente. A vida é que faz as coisas bem, quando nós fazemos o que temos de fazer. Nada é sorte ou azar. É um mau modo de falar e um mau modo de pensar. O que a Vida dá e faz é que é o melhor, ainda que não o compreendamos.

Quando nós fazemos o que não devemos ou não fazemos o que devemos, é quando coisas saem mal. Quando é a Vida que escreve a nossa vida, a escrita é perfeita.

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contado por Jorge Oliveira às 16:45

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Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

O Bebado

Era uma vez uma casinha num terreno nos arredores da cidade. Na parte da frente tinha uma pequena oficina com algumas máquinas e ferramentas, dois quartos, uma cozinha e, nas traseiras, uma rudimentar casa de banho...
No entanto, o Joaquim não se queixava. Durante os últimos dois anos, a oficina de carpintaria «O Sete» tornara-se conhecida na aldeia e ele ganhava o suficiente para não ter de recorrer às suas parcas poupanças.
Naquele dia, como em todos os outros, levantou-se às seis e, meia para ver nascer o Sol. Porém, não conseguiu chegar ao lago, como costumava fazer, porque pelo caminho, a uns duzentos metros de sua casa, quase tropeçou no corpo ferido e mal tratado de um jovem.
Ajoelhou-se rapidamente e encostou o ouvido ao seu peito... Lá muito ao longe, debilmente, um coração esforçava-se por manter o pouco que restava de vida naquele corpo imundo e a tresandar a sangue, sujidade e álcool.
O Joaquim foi buscar um carrinho de mão, dentro do qual transportou o jovem. Ao chegar a casa, estendeu o corpo em cima da sua cama, cortou as roupas puídas e lavou-o cuidadosamente com água, sabonete e álcool.
O rapaz, além de estar embriagado, tinha sido violentamente esfaqueado. Tinha cortes nas mãos e nas costas, e a sua perna direita estava partida.
Durante os dois dias seguintes, toda a vida do Joaquim se centrou na saúde do seu hóspede involuntário: curou e enfaixou as suas feridas, pôs-lhe uma tala na perna e alimentou o jovem com pequenas colheradas de canja de galinha.
Quando o jovem despertou, o Joaquim encontrava-se ao seu lado a fitá-lo com ternura e ansiedade.
- Como te sentes? - perguntou.
- Bem... acho - respondeu o jovem, inspeccionando o seu corpo limpo e tratado. - Quem me tratou?
-Eu.
- Porquê?
- Porque estavas ferido. - Só por isso?
- Não, também porque preciso de um ajudante. E ambos riram a gosto.
Bem comido, bem dormido e sem ter bebido uma gota de álcool, o Manuel, como se chamava o rapaz, recuperou rapidamente as forças.
O Joaquim tencionava ensinar-lhe o ofício e o Manuel tentava fugir ao trabalho como podia. Uma e outra vez, o Joaquim tentava incutir naquela cabeça deteriorada pela vida dissoluta as vantagens do trabalho, do bom nome e da vida honesta. Uma e outra vez, o Manuel parecia entendê-lo e, duas horas depois, ou dois dias depois, tornava a deixar-se dormir e esquecia-se de cumprir a tarefa que o Joaquim lhe pedira.
Passaram-se meses e o Manuel estava completamente recuperado. O Joaquim oferecera-lhe o quarto principal da casa, uma sociedade no negócio e o primeiro turno na casa de banho, em troca da promessa de o jovem se dedicar ao trabalho.
Uma noite, enquanto o Joaquim dormia, o Manuel decidiu que seis meses de abstinência eram mais do que suficientes e achou que não fazia mal ir tomar um copo à povoação. Não fosse o Joaquim acordar a meio da noite, achou melhor fechar a porta do seu quarto, por dentro, e sair pela janela, deixando uma vela acesa para dar a sensação de que estava na cama.
O primeiro copo puxou o segundo, e este o terceiro, e o quarto, e muitos outros...
Estava a cantar com os seus colegas de bebedeira, quando passaram os bombeiros à porta do bar, com as sirenes em altos berros. O Manuel não relacionou esse pormenor com o que estava acontecer, até que, já de madrugada, a cambalear, chegou a casa e viu uma multidão na rua...
Só se conseguiu salvar uma parede, as máquinas e algumas ferramentas do incêndio. O resto foi destruído pelas chamas. Do Joaquim, encontraram apenas quatro ou cinco ossos chamuscados, que enterraram no cemitério com uma lápide onde o Manuel mandou gravar o seguinte epitáfio:
«Vou fazer, Joaquim, vou fazer!»
Com muito trabalho, o Manuel reconstruiu a carpintaria. Ele era distraído, mas hábil, e o que aprendera com o Joaquim serviu-lhe para conseguir gerir o negócio.
Tinha sempre a sensação de que, algures, o Joaquim estava a observá-lo e a dar-lhe alento. O Manuel lembrava-se dele em todos os acontecimentos importantes da sua vida: o seu casamento, o nascimento do seu primeiro filho, a compra do seu primeiro automóvel...
A quinhentos quilómetros dali, o Joaquim, vivinho da silva, perguntava-se se seria legítimo mentir, enganar e deitar fogo só para salvar um jovem.
Respondeu para si próprio que sim e riu só de pensar na polícia da aldeia, que confundira ossos de porco com ossos com os dele...
A sua nova carpintaria, um pouco mais modesta do que a anterior, já era conhecida na aldeia. Chamava-se «O Oito».

Ás vezes, a vida faz com que seja difícil ajudar uma pessoa de quem se gosta. No entanto, se existe uma dificuldade que vale a pena enfrentar, é a de ajudar alguém. Não se trata de um dever «moral», nem nada do género. É uma escolha de vida que cada pessoa pode fazer em qualquer instante e no sentido que desejar.

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contado por Jorge Oliveira às 18:30

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